Valleta Culltural

Valleta Culltural

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Terça-feira, Novembro 07, 2006

 
Um Belo Jardim Multicor

O desânimo chegou e os sonhos foram tolhidos.
Compressas frias para uma cabeça febril.
Cala-se uma voz.
Se Oculta a escrita.
Cegam-se as imagens.
Sem ao menos dizer adeus.
Quem sabe onde estará daqui duas horas?
O desânimo chegou, trancou as portas,
Sedou o corpo, calou a respiração.
Quando lembrar de mim que seja num belo
Jardim multicor, num copo de vidro, num jovem quadril.
A arte não mora mais em mim, tranquei o corpo,
Sussurrei ao vento, vesti a mortalha.
Outrora, trouxe o arado dentro dos bolsos, um corte
Fecundo, um mártir estirpado.
O desânimo chegou, não marcou hora, entrou no carro numa tarde qualquer,
Chegou em casa e fez dela sua morada.
Mas que calor danado, longe do mar, meus olhos
Parecem tão ressecados.

Fabio Santiago

posted by Oiram Bourges 12:15 AM


Quarta-feira, Setembro 20, 2006

 
SENTIMENTOS FINAIS

Fiquei admirado quando vi teus olhos tristes
Teus olhos lacrimejantes e mortos naquela tarde
Na tarde brusca e chuvosa de meu enterro
Nenhuma tarde de inverno foi tão sentida quanto aquela
Os lábios púrpuros trepidavam de frio de tristeza de solidão
Meus pensamentos iam se perdendo se multiplicando ao vento
As lamúrias vagavam pelos corredores enquanto eu sorria
Passos sincronizados acompanhavam meu coração parado sem vida
Uma fina chuva caía onde antes tinha flores reluzindo ao sol
De repente acordei congelado costurado magro e nu
Exposto aos olhares cansados de tanto olhar ao léu
Buscando repostas onde não havia nem perguntas
Enfim tudo enegreceu tudo voou tudo chegou finalmente
Com a grama enraizando em minha testa fiquei a contemplar
A vida torpe que tivera sem receber as menções prometidas
Lúgubre se tornou o dia e eu sorrindo dei um adeus.

António Amarillo Peçanha 2006

posted by Oiram Bourges 4:18 PM


Sábado, Setembro 09, 2006

 
ENTRE UM GOLE DE CAFÉ E A CACHAÇA

Entre um gole de café e a cachaça
Meia hora ou talvez mais de espera.

O trem que parte vai junto a serra
O abismo que separa tem entre a palavra
escrita e a imagem em movimento a solução.

Os sábios dizem para esperar que a hora chega.
Os Fabios, os Marios, os Serafins dizem que tem pressa: Senão a vida os leva.

Mas a vida leva a todos; portanto, os sábios que não são Fabios
e sabem das coisas, devem ter razão; Mas os Fabios, os Marios e os Serafins que vivem
onde tudo passa tão rapidamente, ou seja, na terra
já vêem seus nomes escritos no obituário, já vestem a mortalha,
até a moléstia coloca-lhes de cama; enquanto o sábios, estes, imaculados,
observam a vida de quem passa do outro lado da estação.

Quem tem pressa às vezes erra.
O que espera talvez não chegue.
A alegria para alguns é prenuncio de morte.
A tristeza para outros é modo de vida.

Que belezinha, após o gole de café para despertar e com a chegada da cachaça,
a tarde clareia o dia de forma sem igual,
sem esquecer o caminho que me leva a cidade do sol.

Fabio Santiago

posted by Oiram Bourges 3:58 PM


Quinta-feira, Agosto 10, 2006

 
NA LÁGRIMA DO POETA

Teu amargor é tão perene
Teus rios revoltos
Tua pele cinza
O ocre dos vidros
A velha loucura

Vou seguindo os passos dos que já passaram
Na ira da vida
A frase célebre
A sua voz

Toda a insistência pelo cardíaco batimento
O verso torpe
As palavras soltas
Inquieto recebo farpas

Está por aí? Na lágrima do poeta
No ventre violado
Na voz trêmula do velho Francisco.
Cansado, longe dos seus.
No cárcere de outrora

Perversões filmicas
Cortes profundos
Lua cheia, marcada.
Braços tatuados

Respiro ainda,
Prolongado.
Disforme
Tolo

O absinto molha a língua
Tua foice corta o que restava
Não quero sua sofreguidão
Canto baixinho

Ligo o cigarro e não ouço ninguém
Longe de mim
Longe de ti
Abasteço a discórdia

Segure a sua piedade no colo
Desista não sou seu
Um olho fechado
Um pequeno adeus

O girassol molhado
A partida
Nem todos beijos são de amor
Nem sempre quem vive quer viver
basta um corte, uma fenda, um ardor
Basta a ruptura, basta o desespero
A fumaça cinza, o coco calvo.

Grito para o vazio
Debaixo da língua o vicio
Quero antes de tudo sua anca
O olhar baixo

Todos os santos no meu funeral
Todo verso na boca do assassino
A face em meia luz
O corpo alvo

Não me diga o que fazer
Não queira-me por perto
Sou a perda, sou moeda
Um verso inútil, na boca de um poeta
Um sonhador, daqueles que não serve para nada.

Fabio Santiago

posted by Oiram Bourges 12:20 AM


Quarta-feira, Julho 19, 2006

 
UM DIA FEMININO E PERFEITO

Hoje te vi passar pela rua
Em busca de algo que ninguém sabe o que é
Altiva e bem vestida observava
Seu próprio reflexo nas vitrinas
Enquanto sua vida e as agonias se dissipavam
No frescor de um ar poluído
Um débil sorriso estampava em sua face
Tímida e nítida como borra de café
A alegria que ainda não conhecia
Porém aguardava sem pretensão
Conhecer um desconhecido há qualquer momento
Tudo para lhe dizer ainda com as mãos trêmulas
Que hoje ela foi vista passar pela rua
Linda altiva e bem vestida
E que as vitrinas foram feitas para refletirem
A beleza de uma vida sem pretensões.

António Amarillo Peçanha - 2006

posted by Oiram Bourges 7:07 PM


Terça-feira, Julho 18, 2006

 
FIM DOS DIAS ALONGADOS PELO TÉDIO

Seus olhos brilhavam opacos na sala escura
As mãos gélidas se mexiam entrelaçando os dedos
Pensamentos a torpedeavam a todo instante
Admirava seu vestido de cetim negro vez por outra
A cadeira na qual se sentava rangia os pés
Somente isto acontecia durante seus longos dias
Cansada da situação procurou fazer outras coisas
Saiu da cadeira e rumou para a janela
Admirando o vestido que bailava ao sopro do vento
Se debruçou no peitoril e se atirou para fora
Os pés da cadeira não mais rangeram
Ela gelava sob a neve na calçada vazia
O vestido negro estava amarrotado e vermelho.

António Amarillo Peçanha 2006

posted by Oiram Bourges 2:02 AM


Segunda-feira, Julho 10, 2006

 
Ai, essas vizinhas... essas vizinhas estão sempre aí no ponto de ônibus se servindo de suas mediocridades... não sei quanto a você mas, eu já passei por muitas situações como estas... elas começam a conversa sobre o tempo, se vai chover ou não, se fará sol ou não, depois muda tudo, sem aviso prévio, para flores, e eu ali, continuo na minha, e como não sei o que dizer, faço, como disse um conhecido meu, "a pior cara de descaso do mundo". É sem querer, sei disso, pelo menos penso ser sem querer. Mas, mesmo fazendo "a pior cara de descaso que alguém mereça receber" elas continuam firme e forte naquela lengalenga, e sinceramente não sei o que fazer. Então rezo desesperadamente para que venha um ônibus, ou talvez até um caminhão de lixo, para carregar uma de nós, ou, na pior das hipóteses, todos que estejam no ponto de ônibus.

Débora Avadore

posted by Oiram Bourges 9:07 PM


Quarta-feira, Julho 05, 2006

 
Da série: Ao correr dos caracteres

JEZEBEL

Impressionada estava eu assim que vi a paisagem pela primeira vez da janela do quarto onde me localizava. Havia ao longe uma porção de coisas bonitas, o céu bem azul, o mar tranqüilo com suas águas projetando aos olhares enfeitiçados, um incrível azul turquesa, areias brancas me convidando para caminhar nelas, árvores frondosas, flores, muitas flores espalhadas pela mata onde estava localizada a casa da qual se encontrava. Uma grande variedade de pássaros e insetos voava e caminhava pela região. Tudo era festa, tudo era alegria.

Mas apesar de conseguir ver toda esta maravilha não conseguia me deslocar até lá para sentir tudo isso sob meus pés. Encontrava-me imóvel e não tinha como atender meus mais profundos desejos. Eu realmente precisava de alguém para me colocar à disposição da natureza. Certamente, se isso acontecesse de verdade, seria o ser mais feliz do mundo. Contudo, precisaria da boa-vontade de um outro alguém para que tal desejo se realizasse.

Certa vez, enquanto eu olhava um pequeno passarinho fazendo umas piruetas no céu alguém, que não pude ver quem, atendeu meu silencioso pedido. Expôs-me, enfim, direto onde queria, na natureza. Lá eu, dentro de minhas limitações, me agitava e dava gargalhadas sob o sol que, gentilmente queimava minha pele. Sendo ela um pouco áspera pela falta de cuidados. Mas isto não me incomodava naquele momento, pois estava realizando um desejo e um sonho meu; ficar sob o sol, ficar sobre a areia fofa e ver o mar de perto, como sempre quis.

Porém, vi o tempo mudar gradativamente. O vento, que outrora soprava como carícia, soprava agora como vendaval. Forte e colossal. O céu azul deu espaço para o cinza das nuvens pesadas, carregadas de ira e ribombando feito loucas pelo mundo. Os pássaros já não voavam mais tão tranquilamente assim. Agitação entre os animais e os insetos mais variados me causou aflição. Queria, realmente eu queria, mas não podia fazer nada para mudar a situação.

De repente o mundo caiu sobre mim, chuvas fortes vieram acompanhadas com os mais temíveis ventos. Caí então. Logicamente que sem ação. Ninguém lembrou de mim. Fiquei à mercê da natureza. Contudo, senti que não seria meu fim. Afinal de contas aquilo era um pedido meu; ficar sob o sol, ainda que o ser supremo tivesse desaparecido naquele instante, e naquela época. Durante muito tempo fiquei no relento, sem ação ou reação. Estava inerte.

Um bom tempo após esta quase catástrofe a forte chuva cessou, os ventos pararam, o sol volto a aparecer e a vida reinou naquele ambiente. Embora eu estive ensopado, debilitado e com as pernas arqueadas, mais que o normal, estava contente. Loucura? Pode ser, mas tive o prazer de sentir a força da vida sobre mim. Situação esta que me deixou animada para, se caso fosse, morrer por lá mesmo e servir de alimento a outros seres, de tão feliz que me encontrava. Apesar de que, nem todos os seres gostarem de meu corpo.

E quando eu começava a ficar melancólica e desanimada, por ninguém dar a mínima pela minha falta, alguém, que também não pude ver quem, me pegou com carinho e me levou para dentro de casa novamente. Consternada com a situação em que me encontrava, a tal pessoa tratou de me cuidar. Pegou algum material e trabalhou em mim, com carinho e afeição. Disse-me, em segredo, que aquilo que tivera feito a mim era um teste, e completou dizendo que eu tinha passado no teste. E assim sendo cuidaria de mim como quem cuida de algo bastante precioso. Com zelo. Depois que ganhei cuidados especiais recebi até um nome; hoje em dia eu sou a cadeira que se chama Jezebel.

Oiram Bourges 04/07/2006

posted by Oiram Bourges 1:03 PM


Terça-feira, Julho 04, 2006

 
Da série: Ao Correr dos Caracteres

EMOÇÕES NA MESA DE BAR

Lacerda se levantou da cadeira eufórico e ajeitou as calças que escorregavam de seu corpo roliço sem controle ameaçando cair, e enquanto procurava visualizar um garçom para pedir qualquer coisa para nós, que estávamos à mesa, dividia a atenção com o programa que passava no televisor localizado num canto, perto do corredor dos sanitários, e suspenso até perto do teto por um suporte para evitar que algum enxerido engraçadinho resolvesse mexer no aparelho sem autorização.

Num lance duvidoso, em que o árbitro marcou uma falta para o time adversário ele, o Lacerda, perdeu a passagem do garçom, e consecutivamente esqueceu o que ia pedir. Assim sendo, sentou-se atônito, roeu as unhas da mão esquerda e tamborilou com os dedos da mão direita no tampo da mesa. Estava visivelmente transtornado com a situação. Mas para nossa sorte, seus gritos desafinados não se faziam ecoar nas paredes do recinto. Ele ainda conseguia se conter. O que foi, no meu ponto de vista, algo muito bom. Porque ninguém precisava ouvir tamanha bizarrice.

O tempo passava, e nós estávamos nervosos com a situação do jogo. Os outros clientes do bar estavam nervosos, e o proprietário e os dois garçons também. O Lacerda? De tão nervoso que estava não parava de tremer e de sacolejar. Parecia até uma britadeira em ação. O pote de amendoins pedido há pouco tempo para a mesa estava vazio. Os amendoins? Espalhados pelo chão. E também, há esta altura dos fatos todos nós segurávamos nossos copos nas mãos para evitar que tivesse o mesmo fim dos tais petiscos.

Para o jogo terminar faltava poucos minutos, e com ele nossa paciência também estava no limite. Quanto ao Lacerda não quero nem comentar, pois este se encontrava babando sobre o peito e com os olhos fixos no aparelho de TV, inerte, sem expressões. Ficamos preocupados com ele, mas o jogo estava no fim. Então, deixamos ele ficar ali mesmo do jeito que estava, pelo menos nossos copos podiam voltar para a mesa sem ser derrubados.

A partida estava empatada em dois a dois. O clima tenso no boteco e no campo, onde acontecia o jogo. Jogadores dos dois times se provocavam, se empurravam. Foi aí que houve uma expulsão de um dos nossos. O árbitro, aquele ladrão, deveria ter feito isso com o jogador do outro time, e não com o nosso, pensei. Bom, acredito que todos naquela hora pensaram assim. Mas não havia jeito, a nossa defesa estava sem um importante homem. O Lacerda nem piscava mais nesta hora. Que estranho, pensei novamente.

Faltava apenas um minuto para o jogo terminar, e até eu estava roendo unhas. Alguém resolveu ver o que aconteceu com o Lacerda, pois ele estava muito parado. Havia morrido lá, sentado no bar, e sem o nosso auxílio, mas o jogo continuava. Faltava um minuto, podia mudar tudo. E mudou. O atacante dava tudo o que aguentava, já estava visivelmente cansado, nós podíamos ver isso, todos viam isso. Então passou a bola para um outro companheiro num passe fenomenal que, com apenas um chute... Gooollllll... Gol do Brasil! Gritou o locutor, gritamos nós, gritaram todos no bar, nos lares, e em todos os lugares. Lacerda não gritou, estava morto na cadeira. Olhamos para ele neste momento. Tinha um largo sorriso estampado em sua face.

Oiram Bourges 09/05/2006

posted by Oiram Bourges 12:51 PM


Quinta-feira, Junho 22, 2006

 
GLÂNDULAS REPRODUTIVAS EM FLOR

A menina engraçada, olhou por um buraco e viu o segredinho de um piá pelado.
Abriu bem o olho e fez um beicinho, fumou um Lucki Strike, como nos filminhos.
Olhou sorridente praquilo que o menino esconde de toda gente.
Era uma vez uma menina engraçada, que vivia sonhando com gente pelada.

Débora Avadore

posted by Oiram Bourges 12:42 PM


Terça-feira, Junho 20, 2006

 
Da série: Ao correr dos caracteres

ENCONTRO CASUAL

Havia um tempo atrás duas velhas solteironas que sempre pegavam o ônibus no mesmo horário do meu quando eu voltava para casa no final da tarde. Elas eram por demais reparadoras nas coisas que aconteciam, tanto que quase ninguém escapava de seus olhares críticos e caquéticos. Aliás, elas eram inteiramente caquéticas. Viviam reclamando de dores nas costas, pernas, cabeça, braço, pescoço, unha e até nos cabelos, que por sinal eram postiços. Bem como os dentes, cílios, e talvez até elas mesmas fossem postiças, sei lá.

Bom, certo dia estávamos nós esperando nosso ônibus na praça quando as duas velhotas perceberam a presença de um sujeito diferente junto ao carrinho de pipoca. O cara estava apenas conversando com o proprietário do carrinho e comendo umas pipoquinhas quando percebeu que elas não paravam de observá-lo, além dos comentários que teciam do gosto particular e ridículo do camarada. Está certo que trajar bermuda e camiseta com sapatos não ficam lá muito bem, nem usar a quantidade de correntes e pulseiras de ouro e prata que estava usando, mas isto também é coisa dele. Ninguém precisa se ocupar com a vida alheia. Contudo, isto é pensamento meu.

Mas meus pensamentos não serviram de nada, pois em poucos minutos a coisa ficou feia naquele setor da praça. Houve um bate-boca dos diabos. O sujeito enfurecido com as velhinhas muito pouco discretas, e elas, histéricas até não poderem mais por causa da situação que criaram. Xingamentos não faltaram. Se bem que isto é praxe em ocasiões como estas, pois onde já se viu barracos sem palavras de baixo calão. E é claro que desta vez não seria diferente. Claro que para o quadro ficar completo precisaria do tumulto, e a confusão do empurra-empurra e das cotoveladas para garantir o melhor lugar na observação do espetáculo também aconteceu.

O pessoal que compunha a onda que empurrava para um lado gritava: "eia!". Já o grupo dos que puxavam para outro lado gritava: "opa!". E esta situação continuou por mais um tempo, até que de súbito ouviu-se outro grito, o do sujeito que havia começado toda esta gritaria. Porém, agora era para avisar que alguém o surrupiou a carteira com seus documentos e os poucos trocados que possuía. E como se não bastasse, algumas de suas correntes também sumiram. Com isto a multidão se dispersou. Talvez as pessoas estivessem com medo de serem acusadas de furto.

O infeliz prostrou-se na calçada perto do carrinho de pipoca e das velhas senhoras, que eram de existência postiça e sentiam dores até nas roupas que usavam, e começou a chorar feito criança perdida da mãe em dia de feira. No entanto, o desfecho deste acontecimento foi inesperado para este coitado. Vítima de chacota anteriormente, e logo em seguida vítima de furto sentiu-se amparado justamente pelas chacoteiras. E após esta situação bizarra tudo se tornou ainda mais bizarro, pois as duas velhas o pegaram pelas mãos e entraram no ônibus do qual estavam aguardando há tempos. Ao final todos conviveram bem no mesmo lar. Mas dentro de suas limitações emocionais, claro.

Oiram Bourges 03/06/2006

posted by Oiram Bourges 12:44 AM


Terça-feira, Junho 13, 2006

 
ESCREVINHADO

Espetacular era esta esperança estranha
Embora estivesse entre elites embotadas
Escalou esbaforido escadas esboroadas
Elucidado elogiou embalde e ecoando
Édens edificados em elegantes eixos
Entre estátuas eclesiásticas eretas
Estava ele escalavrado e escafujando
Escabichando escabrosos escabelos entortados.

Oiram Bourges 12/06/2006


SUPERTUDO

Superabundante era o suor que saia do supercílio
Superar a saída tão suntuosa supimpa e de supetão
Sulcou superficialmente o simplório suplicante
Superior da superintendência não era o super-homem suposto
Surtando supervisionou superficialmente a superfície
Surpreso soltou um suspiro um tanto suspenso
Superpondo sabiamente os seus sobre as suas
Superestimou a supremacia do supra-sumo.

Oiram Bourges 26/05/2006

posted by Oiram Bourges 8:10 PM


Sexta-feira, Junho 09, 2006

 
DO CANTO DE LASSIDÃO

Por isso basta o ultimo cigarro aceso e o sorriso desvairado do perdedor,
A vida é uma merda, mas devemos negar tal fato para podermos subir aos céus e beber com Deus.
No meu paraíso, jovens ninfas em pequenos shortinhos brincam num jardim, vestem mini blusas e de seus umbigos dilaceram os olhos perscrutadores... suas ancas engolindo a vida, como um bolo de chocolate sendo engolido por uma boca de metal.
Se a tristeza é sina, a decepção sempre tão perto copula em noites mostardas; deve-se antes de tudo matar o sonho, arruinar a esperança... daí teremos a vida...dessas vidas cruas, cheiro de carne queimada, rostos na imensidão mentirosa e um verso gritado na cabeça doentia.
Tudo é farsa e entre os goles mais profundos obtemos a nossa verdade,
atrás das nuvens talvez o matador se esconda...o amor é remédio e desse vicio obtem-se a vontade de abrir os olhos pela manhã...amor por ela...amor por eles...mas não amor por isso tudo que se chama vida...a chama do isqueiro e seu balé...isqueiro de metal como meu coração...
Quero morrer junto ao mar, cópula tão molhada e apaixonada...
Para mim, um não tão jovem homem triste não perdoado por sonhar deve-se roer os dedos até a chegada do alvorecer... Câncer no ânus... Noites voláteis,
Olhos volúveis.
Para todos esperançosos, basta meu grito, minha raiva carcomida... O ódio...para os que alimentaram os sonhos, um licor saboroso para seus lábios e deixem-me sozinho.
Texto lamento, texto fétido, texto lassidão... Alimento para meus algozes.
Mis uma vez Antonio Marcos cantando na minha cabeça... Fragmento das imagens do dia, das falas dos outros... Da mentiras
Pergunte ao ócio onde encostar sua cabeça, beba gin até o fim do dia... Todos suicidas, todos loucos, todos visionários mortos numa cama de cetim...
Girassóis em sua blusa, sangue e devoção... um dia, tudo tornar-se-à alegria...
Automatismo da palavra, verso livre, distorção...
Mangaba nos lábios, um sorriso curto, olhos tortos, contas para pagar...
Seu Deus está encostado na mesa do bar, enquanto lá em cima, alguém sodomiza a garota junto aos cantos do sabá.
Verso perdido...para os que lamentam, para os que se ofendem...meu verso é lâmina,minha prosa gritada é fragmentação...
a estrada vazia, levava-me ao teu encontro, e só essa certeza eu tinha...ultimo cigarro aceso, garrafa ainda cheia, num pequeno casebre onde chamavam de mercearia, num lugar distante, junto as serras e o mar.

Fabio Santiago

posted by Oiram Bourges 9:17 PM


Segunda-feira, Maio 29, 2006

 
Da série: Ao correr dos caracteres

O MUNDO SECRETO DAS REUNIÕES

Lá estou indo eu, mais uma vez, para a reunião. Para mais uma das intermináveis e insuportáveis reuniões, pensei. Daquelas que ninguém se entende. Onde todos querem falar alguma coisa, como que sentindo a necessidade de dizer algo, dizer por dizer, nem que não fosse importante para a empresa ou para o seu Vanderlei, o gerente. Gerente este que vive perdido entre a papelada dos assuntos à tratar, e que passa horas de seu expediente para organizar os papéis, mas que, quando posto em dúvidas, coisa fácil de acontecer, bagunça toda aquela famigeranda pasta marrom em busca de tabelas, organogramas, estatísticas, ou sei lá mais o quê. Tudo para esclarecer as possíveis dúvidas, que sempre há pelo menos uma dúzia delas para cada encontro, e as dúvidas são tanto dos subordinados quanto do subordinador.

Então assim que cheguei na tal sala de reuniões me deparei com o seu Vanderlei de joelhos sobre sua cadeira, que por sinal é toda manchada dos infindáveis cafezinhos que servem nestes eventos, com a cabeça baixa, e as mãos espalmadas sobre a mesa de tampo de vidro enquanto balbuciava, entre um filete de baba e outro, alguma coisa. Porém, esses efeitos podem ser explicados, pois a pessoa que passa a freqüentar uma sala deste tio, depois de um tempo aproximado de cinco minutos, começa a sentir enclausurado, asfixiado, e com a sensação de que todos ali estão te perseguindo. Se bem que, na maioria das vezes a perseguição acontece de fato. Mas o que quero dizer é que estas sensações podem ser causadas pelos cheiros de fritura encalacrado nas cortinas, e de fumaça de cigarro que sempre paira sobre as cabeças dos que lá ficam. Além, é claro, do clima tenso gerado pelas incalculáveis discussões, e que geralmente nos levam a crer que atos insólitos como estes não levam à lugar algum.

Bom, sem saber por que motivo o velho Vanderlei agia daquela maneira, como aliás nunca sei por qual motivo ele age, procurei se o mais profissional possível, ignorei tais esquisitices e perguntei ao nosso pouco estimado gerente qual seria a razão para mais uma dessas tolas reuniões. Espantado com a pergunta ele olhou para cima, em seguida para os lados, e depois me olhou por alguns longos minutos, e, não satisfeito, ele continuava a me observar com um olhar atônito sem expressar reações conclusivas para esta pergunta que, acredito eu, deva ter causado um colapso em seu sistema neurológico, um tanto quanto primitivo. Contudo, outros tantos minutos se passaram, e então, após mais uns minutinhos de espera a resposta saiu da maneira mais destrutiva possível: não sei! Cuspiu-me assim tais palavras enquanto procurava um lenço para enxugar o suor de seu rosto carunchado.

Em seguida ele voltou a se congelar e a me observar mais uma vez, e eu, estupefato fiquei ao saber da realidade. No entanto não me aborreci, dei apenas meia-volta com meus sapatos novos de pelica e fui-me embora para minha sala. Larguei a pasta com as inúteis anotações que fiz na minha mesa, liguei o computador, afrouxei a grava e rumei à sala do cafezinho para jogar um pouco de conversa fora com o pessoal de outro setor que não o meu, pois minha turma estava se perdendo na sala de reuniões e se perguntando o que foram fazer lá.

Oiram Bourges 25/05/2006

posted by Oiram Bourges 8:42 PM


Quinta-feira, Maio 04, 2006

 
RADIAÇÕES DE UM MORIBUNDO

O incolor de sua cor pouco colorida
Deu destaque a esta neutralidade
Que por fim veio para me acabrunhar
Passos passam passeando pomposamente
Alertando a simplicidade exposta no ar
Ignorados por todos os angustiados
Oh oceano de ridículos que me traga
Dê-me alento no lugar desta situação bizarra
Incapacidade mãe dos desajustados
Traga-me o suplício através do ardor
Sinto uma luz escura a me queimar
Toadas toscas totalmente tépidas
Complementam o cenário mórbido
Sextavado por cunhadores inexperientes
Alardeados pelos mudos da portaria
Que esperam incessantemente
Para poderem gritar uns com os outros.

António Amarillo Peçanha - 2006


MENTE DEMENTE

Internos de seus próprios pensamentos
Perdidos como se fossem crianças sem mães
Procurados procuram por preservação
Na área vazia de um corredor lotado
Pessoas caladas sempre manifestarão
Pela ausência de ruídos na noite crua
Consumindo a energia que o medo possui
Sobre os corpos expostos nas calçadas
A espera áspera de melancolia sem fim
Põe todos onde todos merecem ficar
Lugar desconhecido e sem conhecidos
Não há indicações não há explicações
Não há nada apenas a demência
Daqueles que vivem para presenciar.

António Amarillo Peçanha - 2006

posted by Oiram Bourges 12:10 AM


Segunda-feira, Abril 24, 2006

 
ALUCINADO

Impávido subiu as escadas
Correu os olhos sobre os móveis
Ergueu os braços para o céu
Xingou o vizinho cuspiu na janela
Lembrou de sua impotência
Para como os outros de sua espécie
Ergueu os braços mais uma vez
Xingou o vizinho e a si mesmo
Desistiu sentou no sofá
Seu canivete francês fez brilhar
Mais uma vez ficou sério tenso
Com a habilidade de um samurai
Talhou seu nome com o canivete
Seu corpo esguichava sangue e tudo mais
A sinfonia do vizinho cessou
A impotência não mais existe
Seu mundo quase interessante ficou.

António Amarillo Peçanha - 2006



Palavras expostas como fraturas nas paredes caídas
São ditas ao léu feitas para atormentar o óbvio
Calúnias calúnias calúnias por quem são perseguidas?
Pensamentos com desconexões conectados na parte frontal
Oh são simplesmente sensacionais estes que vêm do tal
Absurdos encontrados num jogo incompatível de versos
Encontros casuais arranjos nítidos feitos gordura no vidro
Pasmaceira no universo entorpece a alma do moribundo
Estugado estupefato estupidificado estuporado
Passos desencontrados tropeçam entre si sem cerimônia
A verdade dita de maneira escusa e cheia de dedos
Quem acreditaria num par de meias furadas diante das autoridades?
Besteira descanse não leve a mal a sério ou para qualquer lugar
Usufruindo de mim mesmo chegarei ao desconhecido
Então perguntarei aos botões da blusa sem botões
Que direi eu sobre tu que vem do além aquém outrem
Suntuosas suposições saturadas de sarcasmo solitário
Pode parar pode parar eu quero descer eu quero sumir
Estancar seria uma dádiva espancar seria um prazer
Oh quero sumir quero dormir quero concluir
Parágrafo travessão vírgula ponto e vírgula ponto final.

António Amarillo Peçanha - 2006

posted by Oiram Bourges 11:52 PM


Terça-feira, Abril 04, 2006

 
APONTAMENTOS SOBRE A VISÃO E FRAGMENTOS

Por que olhas para mim? por que falas comigo? O que queres ao procurar-me disse o morto sussurrando, não busque meus olhos, nem cores na minha face de gesso, não queira tocar-me, não tente. Seu amigo da luz, apenas olhava o morto, impávido.

Por que não param de surgir idéias, imagens, histórias, ritmos, personagens, cores, texturas, frases, flores... se nada acontece, se nada dá certo. A vida por si só não cede, o tempo continua passando rápido e os olhos já buscam no chão, alento para seguir em frente.

Aliterações, verso fétido, anunciação, a fronte exposta entre flores em meios tons, as lágrimas dos entes ficaram em suas casas desbotadas, cor exata tinham os olhos de seu amigo tão iluminado, que assistia o morto, sozinho em seu calvário, ele apenas assistia.

Por mais que eu tenha tentado, buscado, houve apenas a desilusão, será que estas fixações não vão parar nunca, essa obsessão, essa ardência que não deixa seguir meu caminho em paz.

Queria ter tido uma vida sem música, sem literatura, sem cinema. Queria uma vida normal, longe das quimeras. Uma vida tão linear quanto à do camponês, tirando seu sustendo donde houver, seguindo seu rumo, junto ao solo, junto à terra.

Durepox na sola dos pés, vento frio, copas das árvores mexendo-se, vinho nos lábios, o morto sussurra novamente, não olhe meus olhos meu amigo distante, não se aproxime. Deve-se antes de tudo garantir o ópio para seus lábios, a glorificação de um beijo, os clarins.

Longe de tudo isso, uma vida racional, onde o coração apenas deverá bater, os olhos seguirão o ardor de um trabalho, e o corpo enfraquecerá com o tempo. Os dias sendo feitos para progresso e para a ordem.

O odiado ali, morto, frágil. Entra seu algoz na sala, iluminada por uma pequena janela e pelas velas, balé de chamas... o amigo distante já havia ido embora, os familiares do morto não saíram naquele dia frio.

O inimigo ficou ali fitando os olhos do cadáver já tão inacessíveis, tão inatingíveis. O desafeto saboreou tal momento, como quem saboreia uma pequena castanha numa tarde junto à rede e ao mar.

Por que olhas para mim?? Por que falas comigo?? Tais perguntas são tão inexplicáveis quanto a busca pela felicidade, pela realização de uma vida.

Deve-se seguir sem olhar para trás, seguir sem esperar muito à frente, tantas regras que não funcionam, como jogos de adivinhação.

O morto, era tão vivo quanto os que piscavam ao seu lado, se era morto, foi à vida quem o fez ficar assim.


Fabio Santiago

posted by Oiram Bourges 1:44 PM


Quarta-feira, Março 29, 2006

 
O ENCANTADOR DE FECHADURAS

(parte final)

Na manhã seguinte acordei. Um detalhe: já não era mais tão manhã assim. Passava da hora do almoço o momento de meu despertar. Além de todo meu corpo estar com uma dor sem igual. Como se tivesse apanhado de umas três ou quatro pessoas. Então me arrumei e fui para o serviço. Fui tentar explicar estas faltas sem explicações para meu chefe. Porém, no trajeto de casa para o trabalho acabei desmaiando. Isso aconteceu logo que sai de casa, num terreno baldio que costumo cortar para pegar o ônibus. E por lá não sei quanto tempo fiquei, pois pouquíssimas pessoas se aventuram andar por este local. Consecutivamente, se ninguém me avistasse caído no mato a ajuda não chegaria para me tirar daquela situação. E foi justamente isso que me aconteceu: ninguém me viu por lá. Consecutivamente, eu acordei por conta própria, e ainda no meio da noite. Todo sujo de barro e com a roupa rasgada.

Sendo assim, tive de voltar para casa. Foi aí que percebi que precisava de um tratamento médico ou coisa parecida. Poderia estar sofrendo de algum mal sem ter o conhecimento disso. Então, assim que voltei para casa entrei na banheira cheia de água bem fria, para despertar mesmo. Depois coloquei uma roupa, e rumei ao hospital. Ciente de que já era tarde e que encontraria apenas plantonistas no local. Mas veja como são as coisas; não consegui chegar ao hospital. Depois que saí de casa fui pegar um táxi para garantir minha ida até lá, mas apaguei. Acordei sei lá quantas horas depois dentro de um ônibus em uma vila qualquer da região metropolitana. Sem saber como poderia ter parado naquelas bandas, pedi ao motorista da condução para que me deixasse na porta de qualquer hospital, pois precisava de um tratamento urgentemente. Para o bem da minha saúde tinha um perto de onde estávamos. Está certo que não era o mais adequado para mim, pois se tratava de um hospital psiquiátrico, mas na altura dos fatos serviria.

Assim que desci do ônibus corri para dentro da casa de saúde. Procurei a recepção e expliquei meu caso à moça que lá atendia, e depois disse que necessitava de um profissional para dar um porque para os meus problemas. Solícita, ela me deu atenção e me encaminhou ao médico mais experiente da instituição. E após um longo tempo me ouvindo chamou seus auxiliares para me levarem à sua sala especial. Mal sabia eu que a tal sala especial era um lugar de isolamento. Eles tinham a mim por louco. E eu não era louco. Bom, pelo menos eu pensava não ser um. Só sei que estavam tendo atitudes precipitadas sobre este meu caso.

Como estava muito cansado e sem forças para pensar em algo a mais para argumentar sobre esta atitude do médico, adormeci naquela sala em que fiquei sozinho. Lá pelas tantas acordei em outro lugar, mas nem havia sentido alguém me tirar da sala. E quando comecei a circular pelo local onde tinha acordado, percebi que nem os enfermeiros sabiam que eu havia sido transferido. Inclusive, assim que vi o rosto do médico notei a frustração de suas ações. Como se tudo fosse uma grande novidade para eles. Algo não premeditado. Porém, para que não acontecesse isso novamente eles me agarraram e me amarraram com uma camisa de força e me colocaram num quarto onde tem, em suas paredes, almofadas.

Eu, como já nem sabia o que estava acontecendo comigo, fiquei horrorizado. Por isso, talvez como forma de autoconservação, adormeci novamente. Mas aquilo era tudo muito estranho. Depois da visão que tive há alguns dias atrás da moça e toda aquela situação, minha vida mudou por completo. Mas não consigo entender o que poderia ter acontecido comigo a partir daquela visão. Enfim, e para variar, quando acordei já não me encontrava mais dentro do hospital. Talvez alguém tivesse me ajudado e sair de lá. A dúvida consistia em saber quem poderia me ajudar com essas fugas inexplicáveis. Uma coisa curiosa nisso tudo é que eu saí de lá sem problemas, como que por encanto. E falando em problemas, corri o mais que pude para qualquer outro lugar. Que fosse bem longe de preferência. Infelizmente, parece que as coisas não foram tão simples como eu pensava ser. No dia seguinte passei por uma banca de revistas e li, na capa de um jornal, que um hospital psiquiátrico teve, como um de seus pacientes, uma pessoa que pode ter sido quem roubou as tais agências bancárias. E para piorar minha situação, o retrato falado que ilustrava o periódico tinha a minha cara.

A princípio quis comprar todos os exemplares, mas de nada resolveria, pois, além de gerar uma desconfiança no vendedor eu teria de comprar os muitos outros jornais espalhados pela cidade. Procurei então me esconder por uns dias em alguma outra região do estado. Onde não tivesse muita gente morando no local de preferência. Pensei em deixar a barba e os cabelos crescerem. Mudar o visual e de cidade por uns tempos talvez me fizesse bem, além de me dar paz, bom, pelo menos até encontrar uma explicação lógica para todo este equívoco. Coisa que poderia levar alguns dias, ou talvez semanas para encontrar tal explicação. Enfim, lá estava eu num ônibus de viagem, me escondendo com um casaco, óculos de sol, e chapéu, indo direto para uma cidadezinha qualquer que quase nem aparecia nos mapas, de tão pequena que era. E tudo isso era para tentar solucionar esta confusão.

Chegando na dita cidade que nem me lembro do nome, procurei um hotelzinho para ficar. Depois de horas viajando não estava com vontade de passear pelas redondezas. Queria mesmo era descansar. Estava exausto de tanto pensar sobre o assunto, e também pela viagem. Casos que, na manhã seguinte quando acordei, me aprontei e desci rapidamente as poucas escadas que o prédio tinha, em seguida me dirigi ao modesto salão onde serviam o café. Estava faminto, precisava repor minhas energias. Enquanto tomava meu café ouvia dos funcionários do estabelecimento dizendo para o seu colega de trabalho que um dos bancos da cidade fora assaltado na noite que cheguei de viagem. Muita coincidência para uma cidade daquele porte. Mas nada poderia me afetar, visto que assaltos não são exclusividades de cidades grandes.

Assim sendo continuei tranqüilamente com meu café. No entanto, sei, ou pelo menos pressinto quando sou observado, e havia algo estranho naquele ambiente. Percebi que não deveria permanecer naquela sala por mais tempo. Neste caso, tratei de tomar logo meu café e cair fora dali sem demoras. Levantei da cadeira procurando fazer o mínimo de ruídos, depois passei pelos dois funcionários que ali estavam fazendo-lhes um sutil cumprimento com a cabeça. Assim que recebi, também, um sutil retorno no cumprimento, pensei: deve ser apenas uma má impressão que estou tendo com tudo isso. Em breve, assim que me dedicar ao passeio, todas essas ansiedades se acalmarão.

Como não conhecia a cidade saí à deriva pelas ruas, e mesmo sendo perdida no meio do mapa tinha uma história para ser contada, pois tinha um pouco mais de um século de sua existência. Então, pus-me a caminhar pelas ruas para ver as casas antigas que compunham o cenário local. Fiquei admirado pela beleza dos casarios antigos, e, ao mesmo tempo, duas viaturas da polícia vindo em minha direção. A princípio tentei disfarçar meu nervosismo, mas à medida que os carros se aproximavam meu coração disparava. E parecia que os policiais sabiam da minha situação. Tanto que diminuíram a velocidade, e de um pedaço de papel nas mãos o policial quis me perguntar uma coisa. Mas, antes que acontecesse qualquer coisa pior do que eu já imaginava, tratei de correr o mais que pude em direção contrária aos carros, claro. Pelo menos sabia que até eles me perseguirem demoraria um pouco mais.

Então, como não conhecia a cidade me dei mal rapidinho. Duas outras viaturas mais estavam me aguardando passar pelo lugar onde eu me dirigia. Sem saber do que se passava, aliás, até sabia, mas era tudo um engano, e estava cada vez mais difícil de encontrar solução para o caso. E assim que a polícia me capturou as pessoas da cidade inteira festejaram a feliz empresa dos homens da lei. Então, eu detido, esperava desesperadamente um advogado para ver se me tirava desta enrascada. Porém, como já suspeitava, o Estado não bancaria um excelente advogado para me tirar de lá. Mesmo porque eu já tinha me tornado um prêmio, e para quem conseguisse me capturar receberia os louros da vitória. Que grande ironia isso tudo. Quando os verdadeiros ladrões roubam tudo, ou desviam fortunas não são presos, agora para mim... Nem sei o que dizer deste fato.

No entanto, coisas estranhas acontecem com grande facilidade em minha vida. A prova disso foi que, de madrugada, quando acordei para pedir um copo com água, pois estava com sede, tanto pelo nervosismo como pelo calor que fazia, já me encontrava deitado num matagal há pelo menos dez quarteirões da delegacia. Sabe, nos últimos tempos minha vida passou a ser diferente, desde aquele tempo que parei para tomar um simples conhaque no final de uma tarde fria. Porém, mesmo querendo uma explicação lógica para tudo isso, este não seria o momento ideal para procurar meus direitos ou tirar satisfações. Isto seria, no mínimo, idiotice de minha parte, claro. Ainda mais que todos estavam no meu encalço, e pelo visto, continuarão atrás de mim com a intenção de me capturar depois de mais esta fuga inexplicável. Porém, mesmo sabendo que tudo está errado em minha vida posso ficar aliviado em relação a uma coisa: podem me prender, podem me algemar, podem qualquer coisa; mas ao cair da noite, quando todos estiverem dormindo, inclusive eu mesmo, sairei ileso da detenção, seja ela qual for, ainda que sem saber como.

Bom, e para encurtar a maluca e inexplicável história de minha vida; em qualquer cidade que resolvia viver, que por sinal ficava pouco tempo, tinha problemas. Mas de uma coisa era inegável, sempre tinha dinheiro para viajar, tanto para conhecer como para fugir dos lugares por onde eu passava. E esta mistura de dádiva e maldição me acompanhou até que um dia eu, enquanto procurava um lugar para me esconder de uns carros de agentes policiais, me deparei com a tal moça estranha, aquela que acredito ter me enfeitiçado tempos atrás, e aí então fez um movimento com os braços de maneira teatral e desapareceu diante de meus olhos. Perplexo fiquei olhando para o local onde ela estava e descuidado fiquei até que os policiais me encontraram facilmente. Eu, estático com o que acabara de ver nem percebi a chegada dos homens da lei. Só percebi a presença deles quando já estavam me cercando, e como eram em maior número de pessoas não pude fugir. Contudo, ainda tinha o poder da fuga. Sendo assim, nem reagi à investida, pois sabia que em pouco tempo sairia de lá sem problemas.

Mas alguma coisa aconteceu que não gostei. De todas as vezes que fui preso, durante as madrugadas eu já me encontrava fora da prisão, e desta vez isso não aconteceu. Mas talvez fosse apenas um motivo de cansaço, sei lá. Porém, na noite seguinte o tal milagre da fuga não aconteceu, e nem nas próximas noites. Enquanto isso as autoridades estavam montando meu processo; roubo, assalto e sei lá mais o quê. Resumindo; se não conseguisse fugir da cadeia estaria perdido, digo, confinado por um bom tempo. E a boa notícia não chegou para mim. O período de magia, de encantamento de fechaduras, travas e outras coisas mais se acabou. Não mais conseguia fugir dessas coisas que, para mim, era uma simples atividade que praticava enquanto exercia um sonambulismo bizarro, criado por uma entidade feminina que me abençoou e ao mesmo tempo me amaldiçoou. E tudo isso aconteceu com um encantamento feito com um simples piscar de olhos, e que, naquele segundo encontro, com um simples movimento com as mãos o tirou. Justo no momento que eu mais precisei.

Oiram Bourges 20/03/2006


posted by Oiram Bourges 4:47 PM


Segunda-feira, Março 20, 2006

 
Da série: Ao correr dos caracteres (24)

O ENCANTADOR DE FECHADURAS

(parte I)

Era final de expediente e eu não queria ir embora cedo, pois não tinha nada para fazer em casa de diferente além daquelas mesmas coisas que faço, ou seja, fazer um lanche em frente ao televisor, ou ouvindo músicas enquanto observo a velha e entediante coleção de latas de bolacha em cima do armário da cozinha. Teria de aprontar algo de diferente, mas o que fazer então? Pensei. E caminhando pelas calçadas devagar, praticamente contando passos, resolvi entrar num bar para dar um tempo ao tempo. Sentei-me tranqüilamente numa cadeira que dava visão para a calçada, pedi uma dose de conhaque e fiquei apreciando os movimentos apressados e nervosos das pessoas de volta a seus lares para fugir do vento frio que soprava impiedosamente pelas ruas e alamedas.

E quando eu estava com o olhar perdido, observando o nada, surgiu uma figura estranha no meu campo de visão. Melhor dizendo; durante um gole de conhaque e um pensamento furtivo passou diante da porta do bar uma mulher muito bonita, com os cabelos esvoaçantes e bem arrumada caminhando como se estivesse em câmera lenta enquanto as outras pessoas passavam por ela extremamente rápido. Uma outra coisa que me chamou atenção nisto tudo foi o forte brilho que os transeuntes adquiriram, por outro lado, a bela mulher tinha suas cores opacas e escuras. Parecia coisa de bêbado. Se assim eu estivesse até aceitaria esta hipótese, mas com apenas dois ou três goles de conhaque não causariam embriagues tão grande a ponto de imaginar maluquices como esta.

Agora, o que chamou mais a minha atenção foi o fato dela ter sorrido para mim, como se fosse uma mensagem ou algo que não sei explicar, mas que, tal ato fosse a sua intenção. Bom, de qualquer forma se não fosse isso, daquela hora em diante passou a ser. E depois que todas aquelas pessoas passaram tudo voltou ao seu normal. Eu com meu copo de conhaque, o barman trazendo em sua face um ar de monotonia enquanto circulava pelo bar com seus pensamentos longe. Pensei então que seria o momento ideal para ir embora. Virei o último gole da bebida, paguei minha conta ao quase aborrecido profissional do bar e fui embora. Senti que precisava descansar.

O trajeto até o ponto do ônibus que costumo pegar parecia estar, naquele instante, muito longo. E não sabia porque aquilo tudo estava acontecendo. Não poderia ser pela simples dose de conhaque que tomei, sou acostumado a tomar outras tantas doses iguais aquela. Sabe, eu estava me sentindo estranho. Cada passo que dava parecia estar voltando para trás, e não avançando. Era como se precisasse dar uns quatro ou cinco passos para andar o equivalente a um somente. As ruas pareciam ficar mais largas vez ou outra, e o mesmo acontecia com as calçadas. Além do ponto do ônibus, que costumava demorar cerca de uns quinze minutos aproximadamente para que eu chegasse até ele, naquela noite já fazia uns trinta minutos e nada ainda de conseguir avistá-lo. Não me lembro bem, mas parece que demorei quase uma hora para encontrar meu ponto, e assim tomar o ônibus.

Dentro da condução foi outro martírio, ao contrário do que eu pensava. Ao invés de conseguir descansar da curta, e ao mesmo tempo longa caminhada, com o lugar que consegui para ir sentado, fiquei sim, totalmente agoniado. Parecia que todos daquele transporte me observavam, melhor dizendo, me vigiavam. Eu sentia como se todos ali se debruçassem sobre mim, abafando minha respiração, e impedindo que eu respirasse o pouco ar contido ali dentro. Estava sentindo um certo desespero tentando invadir minha mente, e certamente não demoraria a tomar posse de meus pensamentos. O que poderia fazer para que as coisas melhorassem para mim? A coisa mais sensata obviamente. Descer dos ônibus. Precisava respirar. Precisava fugir daquele lugar claustrofóbico.

Fiz o que queria fazer, porém, não sabia onde estava. Tive a impressão de estar perto de casa quando me decidi por descer da condução. Mas percebi estar totalmente errado após minha descida. E o pior, não tinha noção do lugar onde estava. O vento frio soprava e me atordoava ainda mais. Pensei que já estava para morrer de tão ruim que fiquei naquela noite. Caminhei pela noite adentro. E entre uma tropeçada e outra pelas calçadas tortuosas que faziam o movimento de alargar e estreitar eu fazia o trajeto, e o segui até que pudesse avistar algo que fosse familiar. Não conseguia ver o horário, devido a tontura, mas creio que fiquei nesta agonia durante uma e duas horas sem saber para qual lado seguir.

Por sorte me deparei com uma farmácia que fica para os lados de casa. E fiquei, de certa forma contente, pois sabia que mais algumas quadras eu conseguiria chegar em casa a salvo, porque são eu não estava. Mais algumas tropeçadas ao longo deste último e inacabável caminho, conseguira eu avistar a porta de minha residência. Exausto de tanto caminhar não tinha forças para subir os poucos degraus que compunham a pequena escadaria de minha morada. Foi aí que desabei na calçada. E creio que antes mesmo de cair ao chão já estava dormindo, de tão cansado que me encontrava.

Lá pelas tantas recobrei minha consciência, levantei-me e me firmei do corrimão para subir os degraus. Parei em frente à porta e enfiei as mãos e os olhares nos bolsos da calça para procurar as chaves. E assim que as encontrei voltei os olhos na direção da porta novamente, e tal visão me deixou espantado. Poderia dizer até que isso me deixou aterrorizado, pois não lembrava de tê-la visto assim, totalmente aberta. Seria sinal de loucura? Teria sido ladrões? Não conseguia fixar minha mente em nada naquele momento. Aí então surgiu uma dor de cabeça terrível, o que me obrigou a deixar de pensar. Apenas fechei a porta e fui para meu quarto. Precisava urgentemente de minha cama, tinha de descansar.

O dia amanheceu, mas não consegui acordar a tempo para trabalhar. Aliás, fiquei dormindo o dia inteiro. Não acordei nem para me alimentar. Quando dei por mim já passava das sete horas da noite, ou seja, fiquei desmaiado por praticamente todo o dia. Então saí da cama, precisava comer alguma coisa, pois meu organismo estava debilitado. Sabe, fiquei estranhando quando passei pela porta do meu quarto em direção à sala. Jurava que a porta estava fechada. Enfim, como ainda estava um pouco tonto por tantas horas de sono, nem me apeguei a isto. Sentei-me no sofá para ver televisão de posse de um sanduíche caprichado e um copo de leite. Certamente isso me deixaria melhor.

Após o lanche voltei a ter sono, pois fazia muitas horas sem comer nada. Isso então fez com que me desse uma moleza no corpo. Porém, insisti para não pegar no sono. Afinal de contas tinha dormido demais. Resolvi ligar a televisão para assistir algo de diferente, ou, simplesmente qualquer coisa. Eu só queria assistir algo para ver se esquecia da noite anterior. Que, diga-se de passagem, foi um horror para mim. Então, em frente à tv, via indiferente ao noticiário que o telejornal mostrava até o momento em que começaram a relatar um fato acontecido na noite anterior pela cidade. Na mesma noite de quando surgiu aquela dor de cabeça em mim.

Dizia que um sujeito, sem ajuda de qualquer objeto cortante ou perfurante, roubou três agências bancárias durante a noite. Segundo o delegado: "A coisa mais curiosa é que as câmeras instaladas nas agências, ainda que funcionando perfeitamente, não conseguiram captar nenhum ocorrido. Além do que foi registrado pelas portas dos cofres, que foram abertas como num passe de mágica. Sem o auxílio de chaves ou qualquer outra coisa. Portanto, sem digitais ou imagens, sem suspeitos. Nem um túnel subterrâneo, para facilitar a fuga, fora aberto. Nenhum vizinho sequer sabe do que aconteceu. Ninguém viu nada". O delegado ainda informou que a Polícia Federal, junto com a Polícia Civil estão averiguando este fato inédito. Ainda é cedo para dizer qualquer coisa, mas eles já dizem que pode ter sido um caso de crime perfeito.

Que estranho, pensei. Como conseguiram fazer tal coisa sem que fossem identificados. Deve ser coisa de perito, no mínimo. Continuei pensando. No entanto, o melhor a se fazer, para mim naquele momento, era dormir logo, pois como já não fui trabalhar um dia, e sem motivos aparentes, teria um desconto em meu salário. Isso queria dizer: ter de trabalhar mais para conseguir a mesma quantidade de dinheiro e poder pagar minhas contas. Agora o que me incomodava era não lembrar o que me aconteceu neste dia. Então suposições começaram a surgir na minha cabeça enquanto me dirigia, ainda um pouco tonto, para o quarto. Ainda que me esforçasse, todas as suposições, obviamente, eram sem fundamento. Já que as únicas lembranças que tinha apareciam para mim sob a forma de flashes. Confesso que tal coisa chegou a me assustar. Imagine: as únicas lembranças de uma noite e um dia inteiro vir à memória sob a forma de lances rápidos e fragmentados. Parece até coisa de louco. Mas procurei relaxar para ter uma noite tranqüila de sono.


posted by Oiram Bourges 4:19 PM


Quarta-feira, Março 15, 2006

 
CANTO MAL ILUMINADO

Acabaram de matar meus sonhos... executaram-me sumariamente... homens sem face, sem alma, amantes do dinheiro, da multidão, do descaso, das massas... não sabem o que é solidão, nunca irão saber.... não querem efebos desnudos, amantes obcecados, meninas de calça baixa e querosene, a perfeição oriunda das fendas, dos cortes, da imensidão de um verso descontinuo...congelaram meu corpo numa cama de madeira e por lá permaneço... prima Vera disse-me certo dia.

- O cinema é um mundo de perversos, não queira, irá se dar mal.

Ode aos loucos, aos desconexos, aos prolixos... aos que percebem as suas formas Euridice até nos cantos mal iluminados da cidade de prata... quero tocar-lhe a anca avantajada minha musa, de olhos de vidro. Vou correr sem rumo, cabeça de chumbo fosco, corpo desgovernado num emaranhado de cabos.

Mataram-me durante trinta e poucos anos... o tiro certeiro, as portas fechadas para a vida, para seus grandes olhos senhor Deus fecharam-se num nevoeiro diurno, na luz que se perde nas gotículas de água, no orvalho... Um brinde aos desistentes, aos que sempre perdem, aos que sempre ardem, aos que olham nos olhos e perdem-se no deserto das incertezas, mares de gim em sua lápide, perfume nos dentes.

Queria ter visto seu rosto minha linda antes da partida, mas só puder viver nas suas lágrimas, escorrendo por meu rosto de gesso, pálido, frio... acabaram de matar meus sonhos... como sou só sonhos, curvaram meus olhos para o chão para sentir a terra mordendo os pés.

Fabio Santiago

posted by Oiram Bourges 2:04 PM


Sexta-feira, Novembro 18, 2005

 
Da série: Ao correr dos caracteres (25)

SOB O SOM DA RESSACA

Lindamente vi sorrir na minha frente aquela boca entorpecida de licor. Senti em meus ouvidos algo estonteante, ocasionado pela mente divagante que se solta pelo interior da sala onde nos encontramos, toda pintada de vermelho fogo. Os móveis começam a girar, e com eles os ventos alvoroçam nossos cabelos, deixando-os espalhados, como aquele monte de revistas que estavam sobre a mesinha minúscula do canto, perto do rádio antigo e estragado que ganhei de meus avós.

Tudo naquele ambiente soa perigo quando estou acompanhado daquela boca entorpecida. As línguas voam por todos os lugares, pois os olhos se encontram cerrados. Isso quer dizer que eles não vêem barreiras nem pudores. E se eles não conseguem ver, eu é que não vou me esforçar para isso. Então, quando estávamos quase dormindo sobre aquele sofá parcialmente manchado pelo tempo, alguém nos chama para sair... para passear um pouco. Coisa sem utilidade, no meu ponto de vista. Mas, enfim, dormimos de vez.

Em meus sonhos posso ver, sob uma camada de espessa fumaça, alguém dançando nas ruas úmidas enquanto todos, os que ali não estão, ouvem Rina Ketty numa suave e adorável canção que ecoa por todo o lugar. E eu, ainda no sonho, sento no meio-fio para ver o bailado, quase que desconsertante da bela moça com sua saia curta a mostrar, entre uma volta e outra, suas pernas roliças, separadas apenas por uma minúscula calcinha. Ah! Adorável desespero. E eu aqui, dormindo, feito um anjo... caído, de costas, neste sofá empoeirado. Como se fosse um lençol velho usado para cobrir móveis em casas abandonadas.

Então, quando eu já estava me refestelando sobre um mar de são sei o quê, fui acordado, sem motivo aparente, para fazer o desjejum. Ainda embriagado por um prazer impalpável percebo que ali não é uma casa conhecida. Casos que resolvo fazer o que deveria ter feito a tempos. Comer o máximo possível, depois, quando não mais agüentar com essa comilança toda resolvo dormir um pouco mais. Para, mais tarde, pegar pelas mãos daquela boca, ainda entorpecida, para caminhar pelas ruas até que nós nos percamos de uma vez.

Oiram Bourges 14/11/2005

posted by Oiram Bourges 1:12 PM


Sexta-feira, Novembro 11, 2005

 
Da série: Ao correr dos caracteres (19)

DOMINGO

Ouviam-se os primeiros pingos da chuva fina e suave no zinco da calha enquanto Dorotéia, Matilde e Júlia preparavam um bolo para o chá da tarde. Neste momento eu observava Adolfo sentado à mesa da sala principal escrevendo cartas com sua maravilhosa caneta tinteiro trazida da Europa. E escrevia-as de maneira radiante, certamente por estar de posse de sua nova e tão esperada aquisição. Mas também era o único com esse estado de espírito daquela tarde fria. Respirávamos todos um certo ar de monotonia naquele momento. As crianças aborrecidas por não poderem brincar no quintal, eu olhava para todos os lados sem fixar a visão em nada. Jonas tentou cantarolar alguma música, mas sem sucesso. Era um sinal característico de que nós estávamos visivelmente sem assunto para discutirmos.

Com um pouco de desânimo resolvi me levantar e ir até o canto da sala onde estávamos para colocar um disco na vitrola, e assim, tentar melhorar os olhares dos que ali se encontravam. Coloquei um disco de Bach, ouvimos a metade de um lado apenas. As crianças dormiram no sofá, Adolfo preparou seu cachimbo e o acendeu, Jonas recostou a cabeça na parede para um breve cochilo, e eu fiquei sem saber o quê fazer, por mais uma vez. Levantei-me novamente e fui trocar o disco, trocar por algo mais animado talvez, ou quem sabe por algo mais novo, mais atual. Porém, antes que pudesse me decidir o que pôr para ouvirmos o aviso de lanche fora dado.

Nos sentamos à mesa da cozinha mesmo, assim ficaria um pouco mais aconchegante, devido o calor do forno. Consecutivamente serviria para descontrair um pouco as nossas caras amarradas, provenientes da baixa temperatura, que se acentuou ainda mais depois dessa fina chuva. Não demorou muito e todos começaram a falar e a rir, como na hora do almoço. Parecia até uma festa. Ficamos por quase uma hora sentados à mesa conversando, contando algumas anedotas, e logicamente, comendo. Estava começando a ficar tarde, então Júlia sugeriu que fossemos todos à outra sala.

Alguns se ofereceram para ajudar na limpeza da louça, mas como já estava anoitecendo não permitimos que os visitantes tivessem seus tempos encurtados pelo motivo da limpeza. Contudo, fizemos isso para que eles ficassem relaxados quanto à limpeza. Então, oferecemos-lhes um pouco de descanso nos sofás, e ao mesmo tempo se sentissem à vontade para se levantassem e fossem embora. Logicamente que Júlia colocou-os em lugar estratégico para que isso acontecesse. Nos ditos sofás vêm, freqüentemente, rajadas de ventos de todos os lados da casa, pois ficam no caminho de três grandes portas. O que os tornam móveis e os ambientes bastante arejados. Enfim, as horas iam passando e a casa estava ficando fria.

Lá pelas tantas os convidados se levantaram e disseram que iriam embora. Não nos opusemos, nem dissemos para ficarem um pouco mais. Afinal de contas estávamos querendo ficar sozinhos novamente. As visitas tinham nos cansado. E assim mesmo eles relutaram em sair de uma vez, ficaram diante da porta encontrando assuntos para prolongar ainda mais a conversa. Adolfo sacou de seu cachimbo e o acendeu dando longas baforadas enquanto observava, debaixo da marquise da entrada principal, as crianças correrem pelo jardim. Mas perceberam, com a nossa mudez, que queríamos ficar sozinhos. Então partiram para suas casas. Finalmente, pensei. Nos recolhemos e tratamos de acender a lareira e ligar a vitrola. Assim pudemos descansar aquecidos ao som de uma bela música. E claro, nos deliciar com um vinho de ótima safra.

Oiram Bourges 21/03/04

posted by Oiram Bourges 3:16 PM


Quinta-feira, Outubro 20, 2005

 
PAISAGENS REMOTAS

Ah, no doce exílio já tão anunciado até por Deus... Sinais fechados para uma vida... O olhar correndo solto e livre, sem filtros e nem grandes angulares...Tão suave corrompendo vitimas, alterando formas, vislumbrando o belo... Arrebatamento... Mangaba Celestial.

Ah, no doce exílio...Meninas tão quentes como um gole de absinto na taverna carmim...Ninfas jovens sodomizadas ao som de Hendrix...Traças nos bolsos, ouvido carcomido e a doce lembrança do mar... Na gaveta eletrônica do meu computador, a coleção de fotos de garotas que nunca vi abrir a boca molhada, as mãos suadas...Exercício voyeur...Vou seguir nas sombras, quem sabe buscar as serras...A perda sublimada em versos tão tortos quanto a velha arvore, ressequida, miúda, seca, magra...Meu canto no exílio não tem o cheiro da sua pele...Quem sabe uma ultima olhada dentro do seu ventre, me esconder na luz do meu cigarro, acordar após sublimes goles profundos de algo embriagante...Meus deuses, meus anjos, meus guias, meus magos, meus santos em coro, junto ao Cravo, dizendo que devo seguir, todas velas acesas para meu quintal, toda mortalha para meu funeral, verso branco e disforme, prosapoesia e o desejo, ansiedade, inquietude...Irrequieto no exílio, debatendo em cama fria...O perfume dos dias é a fumaça do meu cigarro, é a doença contida no meu lençol...Dêem carona para um rei sem reino.

Os gritos tornaram-se gemidos...No doce exílio não existem ídolos...A vida apenas escorre por entre os dedos... Ah, o mar, seu som batendo nos meus ouvidos enquanto as sombras engolem os versos. Aqui onde ninguém mais pode me encontrar, aqui onde deveras tive amor pela existência, daqui tenho um olhar sem corpo, um olhar distante, como observador assisto a presença do tempo mergulhando a vida em pó, em ouro e pó... Ah, doce exílio, que a lembrança, imagem constante, junte-me aos meus quando na tempestade, todo meu sol, for coberto por nuvens escuras e carregadas...Quero sim, o açoite nos olhos, a vaga na carne, a fenda...O olhar maculado por uma vida de desejos não realizados...

Ah, doce exílio, serpenteio na estrada dos meus sonhos a viagem longa rumo as serras azuis, girassóis regozijam-me...Paisagens distantes...Toda ilusão, toda vontade, todo desejo...Ardendo feito corte de faca, feito palavras rudes, feitos que não valem nada.
Daqui posso ver as sombras que alimentam minha mente...O morto tem sua sombra contida junto ao caixão de madeira escura e fosca.

A neblina nos meus olhos, a cegueira na minha face...Escondo o rosto nas sombras e fico ali, no suave exílio, trago as fotos dos meus pais junto à carteira... A certeza de que fui estrangeiro na vida, um estranho em esquinas, cruzando os sem faces, alimentando um corpo vazio, enchendo um copo tão cheio de magoas...Meu exílio consentido me faz sair de casa todos os dias e em transe e continuar fingindo viver, me faz olhar a neblina tão branca e alva quanto a minha face, as minhas pernas, meu peito...A corrente que levo junto a mim fecha o corpo, moedas nos bolsos e as paisagens remotas das minhas serras tão azuis quanto os olhos de minha amada... Batem as pálpebras...Os olhos estão cansados, no meu doce exílio, os gemidos se confundem com uma oração...O barulho do mar nos ouvidos e o claro escuro da casa vazia...Na estrada de ontem à tarde posso ver o sol queimando o metal dos carros, o brilho dos prédios ao fundo, as serras e o meu desejo de partida...No meu suave exílio, meu cães me esperam para comer, tão ansiosos, tão presentes, tão amigos... Fecho os olhos e adormeço, amanhã terei com Deus enquanto elas caminham nas tardes em jeans Saint Tropez, tão baixos quanto os meus pensamentos.

(Fabio Santiago)


posted by Oiram Bourges 2:02 PM


Quinta-feira, Setembro 22, 2005

 
MEMÓRIAS

Enquanto observava o pôr do sol adormeci
Sonhei que voltara no tempo
Num tempo em que só se retorna em sonhos
Cores vivas de uma época morta
Ah, que saudades deste tempo que não vivi
Senhores, cartolas, bengalas e charutos
Passeavam pelas calçadas ao final da tarde
Cumprimentando as senhoras e as senhoritas
Que sentadas ficavam acompanhando os cavalheiros
Com tímidos olhos de criança contente
Entre seus longos vestidos de seda e chapéus com fitas de cetim
Ah, esses tempos que não voltam mais
O romantismo fazia as vezes dessas tardes
O tempo era aliado nessas ocasiões
Músicas eram executadas parar embalar os namoricos
Sentimentos puros expostos com graciosidade
Tudo parecia não ter fim
Até que um novo dia chegou
Então despertei com o som do despertador
Aí o sonho acabou, aí meu passado se foi.

Oiram Bourges 15/09/2005



RACIOCÍNIO PERTURBADO

Ligações, conclusões, definições
Olhar, observar, assimilar
Emprestar, ceder, doar
Tomar, roubar, devolver
Tudo isso não é fácil entender
Caminho, corro, tropeço
Rolo, tombo em excesso
Rápido, devagar, parado
Sempre fico ali, sentado
Não tem diferença
Muito menos semelhanças
Quanto ainda tenho de pensar?
Escrever, anotar, escrevinhar
A quem mais quero enganar?
Respiro, suspiro, me afogo
Chega! Está na hora de acabar.

Oiram Bourges 19/09/2005

posted by Oiram Bourges 7:11 PM


Sábado, Setembro 03, 2005

 
Da série: Ao correr dos caracteres (23)

Sonho ou realidade?

Através de uma prática nova, descobri que poderia morrer. Seguramente, claro. De maneira induzida e indolor, pis até então pensava que morrer doía muito. Depois de ter feito algumas experiências práticas em outras pessoas, e conseguindo sucesso com o retorno das mesmas à vida novamente, pus, eu mesmo, a descobrir como é o ¿outro lado¿. Entrei então no equipamento que estávamos utilizando para a tal experiência. Podem me chamar de louco por isso, mas o equipamento que levava as pessoas ao outro mundo era uma geladeira adaptada. Bom, e nem tinha assim grandes adaptações para que funcionasse. Bastava apenas tirar o excesso dos alimentos do congelador para uma pessoa entrar lá. Sei que ficava apertado, mas assim mesmo deu resultado. Daí era só esperar um pouco até dar o momento certo para a morte acontecer.

Minutos mais tarde lá estava eu, todo encolhido naquele compartimento da geladeira. Mas só resolvi entrar para fazer esta prática porque já havia feito antes. Continuando; não demorou muito para que tudo acontecesse, e em poucos minutos eu estava morto. Mais algum pouco tempo se passou e fui acolhido por uma mulher aparentando ter uns cinqüenta e tantos anos. Muito agradável por sinal. E que, depois de uma única e simples pergunta minha respondeu com um: "é logo ali". Eu fui, claro, e às pressas... Ao sanitário. Estava louco de vontade de urinar. Creio que estes tipos de experiências causem alguns distúrbios em nossas mentes, ou corpos, sei lá. Bom, e assim fiz como se estivesse naqueles porres memoráveis de cerveja.

Depois de aliviar-me no... Num pátio escuro, pois não deu tempo de chegar ao banheiro, lavei as mãos em uma pia de enfermaria, que estava localizado perto dali. Porém, vi, enquanto procurava enxugar minhas mãos, algumas pessoas deitadas em macas cheias de sangue. Isso me fez crer que tinham morrido por causa de acidentes, ou, não sei dizer. Tem tantas maneiras trágicas de se desligar da vida. Enfim, estavam ali para se recuperarem deste trauma, e depois, curtir o que aquilo lá tinha para oferecer.

Assim que conclui com minhas olhadelas, e com todos os pensamentos superficiais sobre a aparência daqueles sujeitos deitados e ensangüentados, e o pouco que vi do lugar voltei para a mulher. Afinal de contas, eu não conhecia nada nem ninguém. Então, seria prudente ficar com a pessoa que me acolheu. E ela, sem pressa, ia me mostrando os ambientes, como se todo o tempo que ela tivesse fosse dedicado para mim. De certa forma agradeço por ela ter ficado junto a mim, consegui ficar mais calmo com isso.

Num determinado tempo recebi a visita de uns jovens, mas estes me causaram uma certa agonia, pois eram, com toda a alegria, extremamente ruidosos. Não que eu fosse contra essas atitudes... Está certo, não gosto de gente barulhenta. Na verdade o que me deixou eufórico ainda era saber que estava morto, e vendo minha indignação, todos esses jovens, acompanhados da mulher, me levaram à uma sala onde se podia ver alguns prédios existentes. Confesso que fiquei num misto de maravilhado, com as construções, e decepcionado, por não ter visto nem um anjo circulando por lá. Mas quanto a isso não tenho culpa de pensar assim. Na doutrina religiosa da qual fazia parte ainda se pensa assim, em anjos. Mas tudo bem.

Lá pelas tantas, vendo que ninguém se manifestava sobre qual seria meu destino, se voltava à vida que tinha, ou ficava ali, perguntei receoso para a mulher se a minha hora já tinha chegado. Ela abriu um sorriso e respondeu que era para eu ficar tranqüilo, pois eu ainda tinha mais tempo nesta vida, e que só não disse nada sobre meu retorno porque eu não havia me manifestado ainda. Então perguntei sobre meus familiares, e ela, cheia de calma, disse apenas que minha família estava bem, e que um dia todos se encontrariam, para alguns, e se conheceriam para outros.

Depois disso, como num passe de mágica, voltei. E quando abri os olhos estava eu em minha cama. Oras! Mas isto foi um sonho, pensei. Seria isto mesmo? Mas tudo aquilo que vivenciei foi tão... Reconfortante. Posso dizer que me sinto em relação a este fato, a morte, até mais tranqüilo. Parece até que perdi o medo de morrer, ou pelo menos penso ter perdido o medo. Sabe, é tudo muito estranho, um sonho que parece ter sido a verdade. Como se eu tivesse morrido, visto tudo por lá, no lugar aonde todos iremos daqui um tempo, e voltado para viver um pouco mais até que dê o momento oficial de partir. Não sei, mas um dia certamente irei comprovar se foi ou não um sonho.

Oiram Bourges 24/08/2005

posted by Oiram Bourges 4:44 PM


Terça-feira, Agosto 23, 2005

 
Da série: Ao Correr dos Caracteres (22)

AS HORAS

Estava lá, sentado em frente à máquina de escrever, Alceu, na tentativa de se envolver melhor na história que estava criando. Mas por não ter prática com a máquina sentiu dificuldades até para dar início ao texto. Buscou auxílio nas cartas que recebera de sua amiga que mora em outro país, aos livros, e até em filmes, mas tudo isso foi em vão. Ele tinha uma história na cabeça, mas não sabia como expressá-la no papel. Muito bem, pensou; tenho que fazer, não importa como. Então, munido de um copo e uma garrafa de gim conseguiu dar seus primeiros toques no teclado. Começava a surtir o efeito desejado. Não o da embriaguez, mas o de liberar a trava da mente e das mãos.

Quando começou a transpor o que queria para o papel já era muito tarde da noite. Aliás, já era cedo, pois havia passado algum tempo da meia-noite. Mas à medida que Alceu adentrava na madrugada melhor ficava sua datilografia. A sincronia entre as batidas no teclado e o movimento do pêndulo do relógio da parede era tanta que até parecia, para quem estivesse fora dessa interação, o som dobrado de um objeto só. Aquilo soava como se fosse música para os ouvidos entorpecidos do jovem aprendiz de escritor.

A história ia correndo no papel enquanto o tempo ia passando sem medição. Em um dado momento Alceu resolve citar um horário em seu conto: "Bartolomeu, parado diante de um antigo relógio na praça, observa admirado, o teatro de bizarras criaturas, todas incumbidas em fazer tocar as doze batidas da noite". Assim que terminou este trecho do texto escuta seu relógio de parede tocar, também, doze vezes. O que era muito estranho, pois para a percepção dele já havia passado dessa hora fazia bastante tempo. Mas não se deteve neste detalhe, continuou a escrever freneticamente.

Durante as batidas, cada vez mais encorpadas e insuportáveis que a máquina produzia, ouviu então, de maneira quase imperceptível, por causa do som que retumbava pelos cômodos da casa, um lânguido gemido, mas isso parecia fazer parte do sono que invadia sua mente, e que, por certo, queria lhe pregar peças. Ignorou-o, simplesmente, como se nada fosse. O jovem resolveu deixar seu lugar por alguns instantes, se esticar com um breve alongamento. Provavelmente isso lhe faria bem, pensou. Aproveitando a situação, resolveu pegar o copo para se servir de mais uma dose de gim. Aquela ação certamente o deixaria relaxado. Sendo assim ligou o rádio da cozinha para ouvir um pouco de música. Um pouco de distração não faria mal naquela hora tão avançada.

De repente olhou, sem estar com essa intenção, os ponteiros do relógio de parede correrem inexplicavelmente para se unirem no número doze. Em seguida ouviu as doze badaladas. Um absurdo acontecera naquele momento para ele, e certamente para qualquer pessoa que estivesse ali nesse instante. Largou o copo de gim em cima da mesa e esfregou vigorosamente os olhos com ambas as mãos. Nítido sinal de quem não conseguia acreditar naquilo que via. Pensou em jogar o copo no chão para quebrar. Talvez aquela ação pudesse acordá-lo do transe. Porém, abandonou a idéia, certamente tal atitude não iria resolver a alucinação que estava acontecendo com o seu tempo. Veio o pensamento de que isso poderia ser um Deja Vu, mas logo descartou este pensamento porque no relógio até poderia ser isso mesmo, mas com ele não, pois nas duas ou três vezes que as doze badaladas aconteceram sua posição no espaço era diferente.

Pensou que seria melhor dormir um pouco, provavelmente isso poderia ser muito bem efeito de seu dia cansativo. Decidiu em dormir mesmo, acreditou na hipótese de que tudo voltaria ao seu normal no dia seguinte. Com este pensamento preparou a cama para dormir, trocou de roupa e escovou os dentes, tudo para poder ter uma boa noite de sono. E quando estava quase adormecendo ouviu o relógio tocar, por mais uma vez, as doze badaladas. Levantou de súbito da cama, assustado, sem saber o que acontecia consigo. Imediatamente desistiu de ficar deitado. Aquilo parecia tudo irreal, mas preferiu tentar saber o que acontecia, pois seu corpo começava a sentir a falta do descanso.

Diante do relógio Alceu começou a fazer cálculos para saber quantas vezes o mesmo horário vem se repetindo. Desde a primeira vez que tocou a meia-noite até àquela hora somariam quatro vezes, dando um total de sete horas corridas. Sentou-se diante da janela da cozinha esperando o dia clarear, e aí então, levar o dito relógio para o concerto. Qual nada, o tempo parecia atrelado às horas daquele relógio defeituoso, nunca amanhecia. E pela quinta vez ressoou nos cômodos da casa o som das doze batidas. Em sã consciência esse tipo de coisa seria impossível, mas louco também não estava para imaginar tal coisa, pensou. Como poderia estar isso acontecendo? Continuou pensando. Resolveu então fazer um café bem forte para combater a ansiedade que começara a surgir. Segundo seus intermináveis pensamentos, possivelmente isso faria a situação melhorar.

Acreditando na hipótese de que a culpada de todo esse tormento era a máquina de escrever quis quebrá-la de imediato, mas preferiu desistir de seu impulso irracional para ver se encontrava uma explicação lógica para tudo isso. De posse de um grande caneco de café pôs para tocar um disco de seu músico e compositor preferido, o lendário violinista Nicolò Paganini. Talvez não tenha sido a melhor das escolhas para a ocasião, pois na sua época Paganini era considerado endiabrado, que tinha feito um pacto com o demônio para poder tocar como tocava. Mas com essas informações borbulhando em sua cabeça, começou a despertar dentro de sua mente uma estranha linha de raciocínio.

Sentou-se novamente diante da máquina e recomeçou a escrever, e da mesma maneira alucinada de antes. Porém, não se deteve aos personagens ou aos lugares. Literalmente deu ênfase às horas. Pôs-se a descrever sobre o tempo que ia passando em seu texto. E de maneira inacreditável, à medida que as horas passavam no papel a luz do dia começava a dar sinal de vida. Quanto ao relógio; assim que amanheceu e o comércio abriu suas portas, Alceu o levou para o relojoeiro a fim de consertá-lo, na esperança de que tudo voltasse ao seu normal. Depois de algumas horas o rapaz voltou para casa de posse de seu tormento. O relógio não possuía nada de errado em seu maquinário. Nenhuma de suas peças apresentava defeito.

Desolado, Alceu voltou para casa pensativo. Sem saber direito o que tinha acontecido na noite que se passou. Sendo assim, colocou o objeto de sua tormenta na parede, pois, se não tem defeito não há motivo para não deixá-lo em seu local de origem. Nisso, percebeu que o relógio não funcionava mais na parede, e depois constatou que nem fora dela também. O que acontecera então? Pensou. Resolveu pôr uma estranha teoria em prática. De posse da máquina de escrever começou a digitar enquanto olhava para o mostrador do mecanismo de tempo pregado à parede. Ficou estarrecido diante dos acontecimentos. Os ponteiros se movimentavam conforme ele escrevia. E então pôde constatar que isso acontecia com seu relógio de pulso também. Isso queria dizer que ele detinha o poder do tempo. Foi aí que lembrou do gemido que ouvira logo no começo da madrugada. Talvez aquilo tenha mudado tudo naquela hora, pensou. Mas a essa altura dos fatos nada poderia alterar seu destino.

Daí por diante tudo em sua vida se transformou. Inconscientemente buscou a clausura a fim de sempre atualizar as horas para que todos vivessem normalmente. Ele se considerou como sendo o senhor do tempo. Se quisesse poderia parar o tempo, ou mesmo adiantá-lo, se assim o desejasse. Porém, a solidão, gerada por tudo isso, era algo que o maltratava impiedosamente. E com o passar dos meses enlouqueceu. Mesmo assim não parava de escrever seus textos com as devidas atualizações das horas. Mesmo louco sabia da importância de sua atividade. Mas seus familiares não, e também nem faziam questão de saber dessa importância na vida das pessoas. Aliás, ninguém no mundo sabia disso. Sendo assim, foi internado num manicômio qualquer. Porém, a máquina de escrever foi junto, ou melhor, as máquinas, pois durante os meses o jovem escritor e senhor das horas foi adquirindo mais máquinas para poder ter, uma em cada cômodo da casa. Afinal de contas, as pessoas dependiam de seus dedos alucinados sobre as teclas para poderem ter o tempo funcionando como sempre tiveram.

Oiram Bourges 28/03/2005

posted by Oiram Bourges 12:10 AM


Sábado, Julho 02, 2005

 
Da série: Ao correr dos caracteres (14)

A grande festa

Sabemos que grande parte das pessoas gosta de festas, sejam elas quais forem. Tempos atrás fui convidado por um amigo para comparecer na cerimônia de casamento de seu filho, não pensei duas vezes, aceitei no ato. Lembro-me bem do evento, foi memorável. A igreja estava bela com todas aquelas flores e velas, muitas pessoas bonitas, e algumas nem tanto, mas serviam para completar a cena. A cerimônia transcorreu tranqüilamente, e dentro do normal. Com momentos empolgantes, cansativos, chorosos e felizes, como acontece em todos os outros. Terminado aquela coisa sempre igual, partimos todos para a melhor parte de todas, o restaurante. Chegando lá já encontrei um conhecido, estava meio perdido no meio da multidão. Confesso que também me sentia dessa maneira, pois conhecia apenas o pai do noivo até então.

Com garçons eficazes servindo o pessoal achei que era hora de começar a beber algo, e pedi logo de cara uma doze de whisky. Coisa fina! Era um daqueles escoceses quinze anos, meu conhecido pediu um coquetel que estavam servindo na ocasião. Não sei o que era, mas pela variedade de cores achei melhor não arriscar. Poderia me fazer mal. Mas voltando um pouco, posso dizer que festa estava bacana, e não era minha opinião apenas. Umas poucas pessoas que cheguei a conversar disseram a mesma coisa. A única coisa que começava a me incomodar era a algazarra feita pelo povo no salão, muitos gritos de ¿viva os noivos¿ e coisas do gênero eram esparramados ao léu, só para dar aquele clima de animação. Isso aconteceu pelo menos até começarem a servir o jantar, porque depois que foi liberada a banca com a comida, um certo silêncio tomou conta do lugar, pelo menos até acabarem com o banquete. Acredito que nem preciso dizer o quanto essas pessoas beberam nesse ínterim. Alguns convidados, aliás, bebiam a parte dos outros de tão empolgados que estavam, mas nem os censuro por isso. Afinal era uma grande festa.

Lá pelas tantas, depois da comilança, a maioria dos convidados incluindo a mim, estavam bem contentes, em certos momentos dava-se para ouvir as gargalhadas de um grupinho de moças gordas sentadas num canto do salão. Daquelas que o povo costuma chamar de encalhadas. Provavelmente estavam fazendo o casamento das colegas de peso com os jovens rapazes que ficavam desfilando de um lado para outro atrás das outras que seriam realmente as beldades da festa. Claro, as brincadeiras serviam para esquecer um pouco das piadinhas sem graça ouvidas diariamente. Álcool? Certeza que isso ajudava bastante no processo. Apenas as crianças não precisam disso para ficarem malucas, tanto é que estavam correndo nos corredores que davam acesso à saída do restaurante para poderem escorregar, como se estivessem patinando no gelo, ou algo assim. Algumas delas inclusive, estavam tentando escalar uma das paredes construídas com certo grau de inclinação, parecendo com semi-arcos, para darem um aspecto diferente ao lugar. Na verdade era uma frescura a mais para tentar deixar a arquitetura mais bonita.

Todos sabemos que um casamento de verdade não pode faltar o arremesso do buquê, logicamente que este não foi diferente. Enquanto a noiva se alinhava para evento mais importante para as solteironas de plantão, desfilava no salão um tipo estranho com um aspecto horrível e um microfone em punho anunciando com voz meio embolada, típico de quem já está embriagado, que após o ritual do buquê seria servido o bolo aos convidados. Praticamente ninguém (tirando eu) estava prestando atenção no que dizia, talvez nem ele mesmo tivesse. De repente começou a contagem para o lançamento daquele monte de flores já meio murchas para aquelas mulheres sedentas por casamento. Sabe, aquilo me pareceu o lançamento de um foguete para o espaço. Quase acabei acreditando nisso, pois a força do arremesso foi tanta que passou por todas as possíveis candidatas a um futuro casório e parou no colo de uma dona bem velhinha sentada numa poltrona, digo, afundada numa poltrona. E também não foi bem no colo, bateu primeiro na testa da mulher. Sabe, teve muitas versões para o acontecido, eu não pude ver com clareza, estava longe da cena. Além do mais tinha um casal quase transando na mesa em frente a minha. O máximo visto com certeza por mim foi a dona saindo de maca para o pronto-socorro. Para quem ficou no restaurante, e posso dizer que ficaram muitos, restou uma opção, a de beber mais para tentar disfarçar o sorriso besta de suas bocas moles, loucas para darem aquela gargalhada. Eu particularmente falando comi dois pedaços de bolo, e levei um grande pedaço para casa, mas antes disso resolvi convidar uma moça para dançar um pouco. Sim, daquelas desesperadas para arranjar alguém. Quando cheguei perto de uma delas pisei em algo que me fez escorregar. Olhei para baixo e percebi que tinha acabado de moer uma dentadura, acredito que fosse da mulher presenteada pelo buquê. Fingi que fazia parte do meu charme, dei um chute nos pedaços restantes da prótese. Tal movimento espalhou o artefato pelo salão. Quem importa com isso? Pensei. Depois alguém irá varrer isso tudo mesmo.

Olhos grandes me fitando ardentemente, cabelos sendo afastados delicadamente da face com uma das mãos, e as pernas cruzadas completavam o charme das três moças que estavam me olhando. Ao chegar bem perto delas, as três levantaram ao mesmo tempo. Quando me decidi com qual gostaria de dançar, as outras para disfarçar o acontecido disseram ir pegar um pedaço de bolo. Ao som de Frank Sinatra saímos girando por aí, não tínhamos a pretensão de ficar perto de suas amigas mesmo. Queríamos era aproveitar um pouco da festa. Quando estava quase lascando um beijo naqueles lábios carnudos da gordinha o resto do povo começou a aplaudir. Pensei novamente, será que ninguém pode fazer esse tipo de coisa em paz? Então percebi que era para a tia ferida pelas flores, já estava de volta, e fortinha. O passeio de ambulância realmente lhe fizera bem. Ela sorria com sua boca chupada pela ausência da dentadura, fez até menção de dançar. Resolveu então dar uma volta pelo fatídico salão. Por que fatídico? Se você tivesse visto o tombo da mulher não perguntaria. Foi até irônica a cena. Sem olhar para o chão acabou pisando no resto de seus próprios dentes e foi derrubada. Por sorte a ambulância ainda não tinha saído do pátio do restaurante, mas as notícias não eram animadoras para a família. Os enfermeiros atenderam-na no local, porém em vão. A pobre mulher já tinha se aposentado da vida. Restou apenas um corpo espatifado no chão. Se foi triste esta história para quem leu não sei, mas acabei me divertindo um pouquinho com o final antecipado da festa.

Oiram Bourges 17/06/2003

posted by Oiram Bourges 12:02 AM


Sábado, Abril 30, 2005

 
Da série: Ao correr dos caracteres (8)

SINAIS

Na segunda loja de ferragens que mais vendia na cidade trabalhava uma equipe de quinze funcionários, entre faxineiros, vendedores e o gerente. Aparentemente uma simples faceta do cotidiano de uma cidade grande, mas não para um dos funcionários da empresa. No cargo da gerência estava Manoel Brandera, sempre pronto para solucionar qualquer possível problema, apesar de ultimamente ele estar demonstrando problemas de ordem psicológica. Jurava para seu patrão que haveria uma invasão na cidade por um pessoal com intenções nada amigáveis. Afirmava ainda que iria usar os produtos de todas as lojas de ferragens para seus atos. E como iriam conseguir tais produtos? Através de saques. Isso era o que ele dizia todo apavorado quando lhe era perguntado sobre o assunto, porém não sabia quando isso iria acontecer. Uma outra pergunta feita pelos companheiros, mas claro que feita com ironia, seria de como ele sabia de tudo isso, sendo que ninguém nunca teria ouvido falar disso. Sem saber responder, ou pelo menos fingindo não saber para evitar ser chamado de maluco mesmo já sendo tachado disso, não queria dizer, evitando assim maior constrangimento.

O tempo foi passando e seus companheiros continuavam a zombar de Manoel, perguntando onde é que estavam as pessoas que iriam saquear as lojas de ferragens. O proprietário ria das piadas mas ficava pensando que aquela situação não iria ficar bem para seu gerente, pois aquilo era um nítido sinal de distúrbio mental, para não dizer loucura. Mas por incrível que parecesse seu desempenho na loja ainda era exemplar. Enfim, era esperar um pouco mais antes de tomar qualquer decisão. Aquilo poderia ser apenas um momento de fadiga ou sintomas de estresse. Mas parece que esse momento estava apenas começando, pois um dia Manoel deu um grito desesperado em sua sala e pediu para que todos viessem ver o sinal deixado em sua mesa. Os que não estavam atendendo foram correndo ver o que estava acontecendo. Chegando lá viram apenas um punhado de pregos em cima da mesa formando um desenho de seta, apontada para homem que alertava do possível ataque. Nem precisa dizer que todos riram da cara dele. O dono de estabelecimento resolveu conversar com seu gerente e perguntar o que estava acontecendo. Chegou até a cogitar uns dias de folga para que as partes emocional e racional voltassem a sua normalidade. Afinal de contas era um dos melhores, se não fosse o melhor funcionário que ele teve na loja até o momento. Mas se a situação continuasse dessa maneira teria que tomar medidas drásticas.

Sentindo-se perturbado e um pouco desorientado pela situação em que se metera, Manoel não teve outra opção, resolveu aceitar uns dias de folga que foram cedidas pelo patrão. E na medida que os dias iam passando, as idéias de que iriam (alguém) invadir a cidade para cometerem atos terroristas iam enfraquecendo. Após oito dias de descanso forçado, mas merecedor, o fiel gerente da loja resolve voltar a loja. Todos o receberam com satisfação, pois ele fazia falta naquele ambiente de trabalho. Não pela pessoa, porque achavam que era um pouco maluco, mas pela competência com que desempenhava seu serviço. As semanas passavam e seus colegas comentavam entre si que parecia que as coisas estavam voltando ao normal, as conversas eram referentes ao Manoel, ou pelo menos sobre a maluquice que estava dizendo antes de tirar alguns dias de folga. Enfim, para a tranqüilidade de todos, parecia que o assunto de conspiração chegava ao seu final.

Mais semanas se passaram e o cotidiano da loja volta ao normal por completo. A rotina da função de gerência, ou o ¿faz tudo¿ era muito cansativa, mas conseguir se ocupar a ponto de não pensar nas coisas que dizia nos momentos de devaneio era melhor. Manoel sempre era o primeiro a chegar e o último a sair, claro que por este motivo seu horário de almoço era maior que dos seus colegas. Certa vez, durante sua refeição sentiu uma dor repentina no estômago, mas não era uma simples dor, e sim de grande intensidade. O que incomodava o pobre homem era não conseguir entender o motivo, pois nunca tivera tamanha dor. Resolveu ir ao médico para fazer um exame, ou pelo menos tentar descobrir o que estava acontecendo com seu corpo. Tirou a manhã do dia seguinte de folga e foi ao especialista. Após alguns exames e já de posse de uma radiografia do estômago, pôde-se constatar que continha um pedaço muito pequeno de metal em seu aparelho digestivo. O médico em tom irônico perguntou se ele costumava comer metais junto com as refeições. E já complementou também dizendo que certos alimentos já contém Ferro, não havendo necessidade de ingerir certas coisas pra ficar fortinho. Manoel estarrecido com a atitude do profissional nem esperou receber uma receita ou marcar uma nova data para exames aprofundados, se é que iria ter, saiu do consultório sem se despedir. Foi pela rua terminando de abotoar a camisa e vestir o paletó, além de estar resmungando palavrões que ofendiam até a mãe do dito médico.

Chegando na loja nem quis comentar sobre o resultado do exame com ninguém. Imagine se alguém soubesse que por dentro de seu corpo existe um pedaço de metal. Com certeza iriam dizer que a loucura teria voltado. Mas então o que poderia responder se alguém perguntasse? O básico pensou, o médico ligou para seu consultório avisando que devido a um pequeno acidente de trânsito no cruzamento onde ele estava o impedia de chegar a tempo de atender seus clientes naquele horário. Mesmo se nenhum de seus colegas acreditasse na estória inventada, ele iria sustentar até o fim. Afinal de contas não parecia ser uma mentira tão absurda assim para que todos ficassem desconfiando de sua resposta. Porém ninguém perguntou nada. Então Manoel trabalhou o resto do dia e foi embora para casa descansar.

Ao chegar em casa a dor voltou a incomodá-lo, mas agora com mais intensidade que antes. Imediatamente tratou de tomar um coquetel de remédios e resolveu dormir mais cedo para ver se melhorava deste incômodo. No dia seguinte o relógio tocou no horário de sempre, sete horas. E como amanheceu sem dores pôde ir trabalhar sem preocupação. Durante o dia correu tudo muito bem, coisa que dificilmente acontece em sua jornada de trabalho. No final do expediente como de costume, todos os outros funcionários já tinham ido embora, enquanto o gerente ficava até mais tarde para contabilizar as vendas e organizar alguma coisa para o dia seguinte. Tornado assim seu dia mais rentável. Tudo organizado, era hora de ir embora também.

Na manhã seguinte o proprietário da loja ouviu um noticiário pelo rádio que parecia não ter muita importância, mas depois que saiu de casa rumo à loja ficou pensando no que tinha ouvido. Parecia ser algo familiar para ele, porém a noite mal dormida que tivera impossibilitava de lembrar o que era. Chegando na loja por volta das nove e quinze encontrou o estabelecimento ainda fechado e a maioria dos funcionários para o lado de fora. Logo pensou. Basta um se atrasar para os outros tirar proveito da situação, referindo-se ao seu gerente. O patrão saiu de seu carro com cara de poucos amigos dizendo um bom dia quase sem abrir a boca para aqueles que ali estavam. Tirou a outra chave da porta que estava em seu bolso e foi decidido para abri-la. Porém sua chave não girava o mecanismo da fechadura, era como se tivesse uma outra chave por dentro impedindo sua abertura. Pensou um pouco e resolveu chamar um chaveiro para arrombar a fechadura. Acreditou naquele momento que tivesse pegado a chave errada. Depois de mais trinta minutos aproximadamente conseguiram entrar na loja. Imediatamente todos levaram um grande susto, pois não tinha nenhuma mercadoria nas prateleiras. Fomos roubados, pensaram. Porém, aquilo tudo era muito estranho para todos, não tinha marcas de arrombamento, e ainda estava a chave do Manoel na porta, mas se estava a chave dele na porta porque não abrira a loja até aquele momento. Uma única pergunta para muitas pessoas. Começaram a procurar evidências, ou algum vestígio que pudesse mostrar-lhes o que estava acontecendo. Logo mais um susto seguido de gritos e alguns desmaios surgiu ao entrarem na sala do gerente. Os poucos que conseguiram olhar ficaram estarrecidos com tamanha brutalidade. Os olhos de Manoel estavam furados com grandes pregos, com a boca cheia de porcas e parafusos, suas mãos estavam pregadas no próprio peito, no pescoço tinha um colar bem justo feito com arame farpado. Atrás de sua cabeça estava sem cabelos, na verdade estava sem pele também, fora usado um ralador de legumes para destruir o couro cabeludo daquela região. Seu abdômen estava inteiro furado, como se tivesse levado vários tiros de escopeta, mas na verdade tinham sido feitos por parafusos de diferentes tamanhos, e estranhamente feitos de dentro para fora. E para completar a horripilante cena, aqueles que ainda conseguiam ficar no recinto, com a ajuda do gerente que estava indicando para o teto com um dos dedos da mão direita, puderam ler a seguinte mensagem escrita com seu sangue: "Ele dizia a verdade, mas vocês preferiram zombar ao invés de acreditar". Depois disso o proprietário resolveu abandonar este ponto de comércio, e depois que a imprensa divulgou o ocorrido ninguém quis alugar o imóvel. Meses mais tarde a prefeitura após conseguir a devida autorização destruiu o imóvel, pois recebia freqüentes reclamações da vizinhança, que alegavam ouvir vozes estranhas, e vez ou outra eram espirrados pregos lá de dentro em direção à rua.


Oiram Bourges 25/11/2002

posted by Oiram Bourges 6:24 PM


Sexta-feira, Abril 22, 2005

 
Da série: Ao correr dos caracteres (16)

Uma ópera em quatro atos

O mundo das óperas e concertos de músicas clássicas sempre foi repleta de fantasias e muita pompa. Então quatro amigos combinaram de ver uma ópera de Rossini que estava passando no melhor teatro da cidade. Todos estavam empolgados e ansiosos pela noite musical, assim que chegaram ao teatro se dirigiram a um dos mezaninos que estava reservado em seus nomes. "Perfeito"! Dizia o primeiro dos amigos para a arquitetura do local. "Esplêndido"! Dizia o segundo. "Exuberant"! Dizia o outro com sotaque francês enquanto enrolava seu vistoso bigode e agitando uma bonita bengala com o cabo de madre-pérola. É, parece que é mesmo...Dizia o Zé.

Logo no primeiro momento da ópera as emoções foram realçadas com chá de maçã com canela, servido em xícaras de porcelana inglesa para três dos amigos apenas. O Zé preferiu roer um pedaço de rapadura trazida de casa por ele. Os outros se olharam e murmuraram palavras de reprovação, o primeiro esboçou; coitado! O segundo; assim não dá! E o terceiro alisando seu cavanhaque dizia, "detestable"! O Zé nem ligou, e então passou a chupar para fazer menos barulho. Os três rostos simultaneamente ficaram distorcidos neste momento tão inusitado.

Durante o solo da jovem soprano (aquela mulher que tem seu corpo reforçado, mas que canta fininho) o público delirava quando esta alcançava os tons mais altos de sua voz. Alguns particularmente falando, chegavam a chorar de tão emocionados que estavam. O Zé? Hum! Este encontrava-se empoando o nariz sonoramente neste momento de tamanha magnitude. Um dos amigos quase desmaiou ao ver este disparate, mas foi acudido pelos outros dois. Mesmo assim, íntegros que são, não desviaram suas atenções do belíssimo musical, e ainda dizia o primeiro: Belíssimo! O segundo; maravilhoso! E o terceiro; não disse nada. Estava limpando o bigode e o cavanhaque grudados de saliva, pois este quase desmaiou. Porém, logo havia se recomposto por completo.

Terminada a ópera saíram todos animados, felizes e cheios de classe no caminhar. Pelo menos até a saída, quando o Zé pediu ao terceiro amigo, aquele do bigode vistoso e cavanhaque para que devolvesse a bengala, porque este era o acessório de seu avô. Ao saírem do teatro todos os três agradeceram o amigo Zé polidamente ter proporcionado (pago) uma ótima opção de lazer. É, até que foi bom, dizia o Zé de maneira simples e olhando para a sola de seu sapato que estava grudada em uma goma de mascar.

Oiram Bourges 15/09/2003


COMO É QUE É?

Garçons corriam de um lado para outro
Com afã para limpo tudo deixar
Era noite de grande festa
Era noite de bailado no salão do palácio
Todos alegremente a dançar e a matraquear

Garçons corriam de um lado para outro
Com afã para imiscuírem-se na vida alheia
Até um relâmpago fazer a terra atroar
O ribombo revelou os pávidos
Debandaram-se todos, até o rei

Garçons corriam de um lado para outro
Com afã para dos atavios desviar
Taças e cadeiras espalhadas pelo lugar
Lascas, pedaços, sapatos ao ar
Lúgubre então ficou o salão

Garçons corriam de um dado para outro
Com afã para de suas vidas salvar
Assobios eram largamente ouvidos
Tremores, gritos e tudo mais
Foram ouvidos como sinais

Garçons corriam de um lado para outro
Com afã para tentar alertar
Que esta história sem pé nem cabeça
Irá finalizar de maneira drástica
Assim, como fora o resto do texto.

Oiram Bourges 22/04/2005

posted by Oiram Bourges 11:33 PM


Domingo, Abril 10, 2005

 
Da série: Ao correr dos caracteres (9)

O corpo viajante

No primeiro domingo do mês de janeiro de setenta e dois, alguns meninos foram ao rio que passava perto de suas casas para pescar, conforme tinham combinado na passagem de ano. Logo nos primeiros minutos da atividade, um dos pequenos pescadores encontrou uma grande caixa de madeira boiando, ou pelo menos parte dela, nas águas do rio. Curiosos, resolveram saber o que tinha dentro daquele enorme objeto. Quando chegaram perto descobriram que era uma urna funerária, mas faltava saber se estava vazia ou não. Um deles tomou a iniciativa de puxar o caixão para a margem, uma ação que logo foi seguida pelos companheiros. Com um pouco de coragem resolveram abrir para ver se tinha algo, ou alguém dentro. Levaram um enorme susto, pois na verdade tinha um homem na "embarcação" recolhida por eles. Porém o corpo era de um desconhecido, e pela sua aparência já fazia alguns dias que estava morto. Mesmo porque, por estar completamente molhado o estado em que se encontrava não era dos mais agradáveis de se ver. De imediato um deles foi avisar os pais sobre o acontecido enquanto o resto tomava conta do tenebroso achado. Eufóricos tentavam descobrir através de palpites quem era e como morreu. Aproximadamente uma hora mais tarde estava de volta o garoto e com ele um bando de gente entre pais, alguns familiares, e claro a polícia que também já deixou avisado o ocorrido à única empresa funerária da cidade. Resumindo, vieram quase todos da cidade. O açougueiro pensou em dar uma olhada para ver se conhecia o defunto, mas desconfiou que alguém poderia insinuar que futuramente a população da cidade poderia estar consumindo carne humana no lugar de carne de gado ou de porco. Mas as autoridades da cidade estavam preocupadas com o ocorrido, pois ninguém conseguia descobrir quem era nem como foi parar uma coisa dessas num rio.

Voltemos um pouco mais na história então. Há três semanas durante uma discussão com o proprietário de um pequeno bar da cidade vizinha, morre de enfarto um de seus melhores clientes. O dono de estabelecimento resolve reparar o dano causado por ele, mesmo que indiretamente, mas para não ficar mal falado na redondeza decidiu pagar todas as despesas do serviço funerário, incluindo o caixão. Porém no dia em que o corpo ia ser velado pelos familiares e amigos, caía uma forte chuva. Isso dificultou muito o serviço da funerária, ela teria sido contratada para levar o defunto do hospital onde teria feito um exame para descobrir o real motivo da morte até a casa da viúva. E como as estradas estavam encharcadas devido a chuva que caiu nos últimos dias, a lama foi o motivo para que o carro derrapasse por várias vezes até bater com a parte de trás do veículo em um barranco perto do rio. Isso fez com que abrisse a porta traseira, e num passe de mágica a esquife não estava mais dentro do automóvel. Mas isso só foi percebido alguns metros adiante quando finalmente numa grande subida tudo parou de vez. E após terem combinado quem iria empurrar o carro para desencalhar perceberam que a porta estava aberta e não tinha mais nada dentro do carro além deles. Um desespero total foi aquele momento para ambos. Procuraram por alguns minutos, mas a tentativa foi em vão. Como iriam explicar o ocorrido para os familiares e amigos seria difícil saber. Então resolveram criar uma alternativa para tal tragédia. Passaram novamente pela agência funerária e após se explicarem para o proprietário do estabelecimento pegaram um novo caixão, em seguida pararam no cemitério para ver quem tinha sido enterrado por último. Por sorte descobriram que tinha um que fazia pouco tempo que estava lá. No maior segredo pagaram ao coveiro uma boa quantia para ajudar a retirá-lo do túmulo e colocá-lo no novo caixão. Por sorte o finado aparentava ter o mesmo peso daquele que tinha sumido no rio. Agora teriam que inventar uma boa desculpa para que os familiares e amigos não pudessem vê-lo na urna funerária, ou então os dois é que iriam morrer.

De volta ao caminho que levaria ao local do velório. Motorista e ajudante quietos, mas roendo o pouco de unha que ainda existia em seus dedos. De repente começaram a tagarelar coisas sem sentido e sem parar, provavelmente tentando achar alguma maneira de se livrarem desta enrascada. Até que descobriram um jeito de burlar tal situação. Era inusitada, mas poderia dar certo. Aliás, tinha que dar certo. Saíram do trajeto que estavam fazendo para pararem num sítio que tinha umas vacas leiteiras pastando perto da cerca de arames. O motorista pegou um monte de bosta que estava próximo à cerca com um saco plástico, e rapidamente colocou dentro do caixão, lacrando-o imediatamente. E com a mesma velocidade entraram no carro e saíram em debandada estrada afora levantando tanto pó que até parecia um cometa. Com uma hora e meia de atraso eles chegaram na casa do defunto. Ou melhor, na casa onde o antigo defunto enquanto vivo morava. Conseguiu entender? Então continuemos. Ao som de muitas reclamações e pouca ajuda o caixão foi retirado do carro, mas a advertência foi dada imediatamente. O motorista foi logo avisando que ninguém poderia abrir a esquife. Vendo que não tinham entendido o que dissera, resolveu repetir. "Devido ao adiantamento do estado de decomposição do finado ninguém poderá abrir o caixão". Houve alguém que retrucou tal aviso dizendo: "que adiantamento que nada, foi é atraso por parte de todos que cuidaram do caso". Claro que os dois nem resolveram dar continuidade a discussão. Engoliram as salivas a seco e montaram guarda ao lado do principal motivo do atraso. Só para terem certeza que não iriam abrir a tampa. Se bem que, do jeito que estava fedendo aquela merda, as pessoas do recinto não teriam tanta coragem assim.

Lá pelas tantas, a sala era o lugar da casa menos agradável de se ficar. Como fazia muito calor naquele dia, os familiares resolveram adiantar o sepultamento. Buscaram o padre da vila para fazer uma oração. Porém a casa estava fedendo de uma certa forma que aquela madeira chamada de canela bosta (usada por famílias com condições financeiras não muito boas) parecia perfume francês. O padre quando chegou no local fez uma careta incrível e parou na parte externa da casa. Disse que devido ao calor estava se sentindo mal, e que encomendaria o corpo do lado de fora mesmo para evitar um possível desmaio. Óbvio que ninguém acreditou, mas também nem se opuseram ao argumento dado. Pelo contrário, todos resolveram passar para o lado de fora da casa para orarem. Reforçando ainda mais a desculpa esfarrapada dita pelo religioso. Como tinha gente que estava quase vomitando pelo quintal nem aceitaram ao cafezinho ofertado pela viúva. Devido o mosqueiro que se formou dentro da casa nem perderam muito tempo ouvindo as orações, voltaram para dentro do imóvel e trataram de pegar o caixão, mas isso depois de tirar no palitinho quem iria pegar as alças daquela fedentina. Devido a correria no local quase ninguém ficou para o enterro. Muitas desculpas surgiram para evitar a ida ao cemitério e participar da cerimônia final. Porém, mesmo depois de muita gente dizer que não iria ao sepultamento, o que aconteceu foi justamente ao contrário. Em torno da sepultura estava fervilhando. Não pelo defunto, mas para contar quantas pessoas compareceriam no horário em que finalmente o gerador do mal cheiro seria enterrado. Enfim, praticamente todos os que estavam no começo do velório compareceu ao evento. Cada um com sua desculpa pouco convincente. Afinal, o povo queria estar na hora do último adeus, e ao mesmo tempo ver quem é que iria ficar até o fim da cerimônia sem torcer o nariz. Terminado o show todos voltaram às suas casas, pelo menos quase todos. A viúva foi para casa de uma prima ficar uns dias até que situação de sua casa voltasse ao normal. Mas para isso ela sabia que teria que desinfetá-la. Após lavar por dentro e por fora, e mais uns dias para sumir o mau cheiro por completo, a casa poderia ser habitada novamente.

Sabemos que essa não era a verdade da história, pois o defunto (principal) estava em outra cidade. Como ninguém sabia de qual localidade era aquele corpo as autoridades resolveram fazer uma rifa do finado. Os agricultores da região queriam ganhar o lote, digo o corpo para poder esparramar em suas terras como adubo. Já a pequena clínica de fraturas existente queria transformá-lo em modelo para mostrar a população a melhor maneira de se tirar radiografia, mas claro que isso depois de dissecá-lo. Agora a criançada que o achou queria por todo custo a sua posse, pois queriam transformá-lo em espantalho. No final das contas ele acabou virando comida de cachorro. Num descuido das autoridades dois cachorros grandes conseguiram entrar no necrotério pela porta dos fundos e se depararam com a carcaça do pobre homem em cima de uma mesa, não demorou muito para que o corpo se resumisse em cabeça, parte do tronco, pescoço e pedaços dos membros. Dias mais tarde o resto do homem sumiu de vez, mas ninguém sabe como isso foi acontecer. Já o mercado possuía uns cortes nobres de carne.

Oiram Bourges 03/03/2003

posted by Oiram Bourges 9:45 PM


Segunda-feira, Março 28, 2005

 
Da série: Ao correr dos caracteres (21)

A casa fantástica

Acontecia uma reunião familiar na casa dos Fontana no dia que resolvi visitar o patriarca, pois este havia sofrido um pequeno acidente e quebrado o pé direito. Mas como em toda a reunião familiar que conheço, cada membro da família levou a sua própria como acompanhante. Bom, e com tanta gente espalhada pela casa poderia considerar aquilo como sendo uma festa. Ótimo, sabendo que aquilo já era uma festa, poderia então tirar proveito da hospitalidade. Mas claro, de maneira comedida. Primeiro porque a idéia da festa no ambiente foi de minha autoria, ou seja, só eu sabia que aquilo era uma festa, e segundo porque o Sr. Fontana, o anfitrião, estava doente. Isso queria dizer uma coisa: não abusar dessa hospitalidade. Na verdade para mim isso não era problema, falo de festas, mas sou uma pessoa pacata.

A coisa estava boa para mim, tinha salgadinhos, pães, geléias e patês, e um bolo não muito grande, mas serviria para saciar a vontade de alguns em comer doces, ou talvez apenas como um complemento alimentar... Para os adultos logicamente, porque para as crianças isso poderia ser, perfeitamente, como a refeição principal. Ia tudo muito bem, todos se alimentaram, depois conversaram um pouco, ainda à mesa, para depois se acomodarem nos sofás e poltronas. De repente perceberam que a cachorrinha poodle dos Fontana havia desaparecido de suas vistas. Mas nem deram muita atenção pelo fato de haver crianças pela casa, e o que ela (poodle) não gostava era ter de dividir seu espaço com elas.

A reunião, ou a festa passou a ter ares de cansaço em alguns dos que ali estavam. O que não era de se espantar para aqueles que estava há horas fazendo "sala" aos visitantes. Principalmente para seu Fontana e seu pé engessado. Lá pelas tantas pedi para me indicarem o sanitário, pois os líquidos estavam fazendo efeito. Tive de subir os degraus até o primeiro piso para fazer uso deste cômodo porque o sanitário que fica próximo à sala estava com defeito. Sem problemas, pensei. Então subi a espaçosa escadaria daquele fabuloso imóvel do século XIX, prestando atenção em todos os detalhes nas telas e nas fotografias espalhadas ao longo do corredor até a entrada do dito sanitário. Grandes e diferentes interruptores de luz ornavam as paredes do antigo casarão. Além das louças como pia e vaso sanitário e bidê que eram um caso a parte. Tudo muito antigo, muito bonito, muito peculiar. Poderia incluir nesta fantástica lista de antiguidades todos os espelhos que ajudavam a compor a decoração da casa.

Pois bem, estava eu lavando minhas mãos enquanto observava os azulejos do banheiro, até que percebi uma dessas bonitas peças de cerâmica com um pequeno quebrado. Mas isso não afetou em nada o conceito que tive sobre a beleza daquela residência. Mesmo porque era tudo muito antigo, e acredito que nem exista mais daquele tipo de azulejo para vender. Então, com as mãos devidamente lavadas e secas era momento de sair dali e me juntar aos outros. E num susto pulei para trás quando abri a porta para sair. Não consegui descobrir o que era, mas uma coisa escura e pequena passou sobre meus pés a toda velocidade. Com o coração acelerado resolvi descer as escadas para comunicar o que vi, digo, o que senti. Rapidamente fui acalmado pelos moradores da casa quando me contaram que era a maluca da cachorra chamada Brenda, que tem como seu passa-tempo correr pelos corredores. Tranqüilizado com a explicação sentei para mais uma rodada de conversa entre os que ali estavam.

As horas, como todos sabem, passam. E passam mais rápido, de maneira cruel poderia assim dizer, quando a conversa flui agradavelmente. Sendo dessa maneira, seria prudente que os visitantes resolvessem ir embora, pois já se fazia tarde. Porém, enquanto o povo se decidia realmente se ia embora ou não, ouviam-se leves ruídos pela casa. Todos pensaram ser um pequeno pássaro se ajeitando em seu ninho, ou, quem sabe, a Brenda brincando pelos corredores com seus brinquedos. E com este pensamento a prosa se estendeu por mais algum tempo, ainda mais porque tínhamos como desculpa o cálice de licor que nos era servido. Claro, não podia recusar esta oferta. Aliás, mal podia esperar para provar o licor que a família Fontana produzia. Segundo especialistas no assunto, tal bebida era respeitadíssima entre os modernos pensadores e intelectuais. De posse dessas informações, seria interessante que eu também pudesse contribuir com minhas opiniões a respeito do licor. Ainda mais quando se tinha uma bela moça para servir a bebida.

Ao longo dessa adorável conversa comecei a olhar, vez ou outro, os quadros expostos na sala onde estávamos acomodados. Porém, tenho a dizer que existem sensações que só acontecem quando estamos no lugar pela primeira vez. Nesse caso era a residência do Sr. Fontana. Tive a impressão, enquanto observava as telas nas paredes, de que um relógio, pintado de maneira magistral no centro de uma bela praça florida, havia mexido o ponteiro dos segundos. Ora, pensei: isso só podia ser efeito do ambiente que nos arremete a épocas distantes, e ainda, e que talvez esse seja a melhor das explicações para meu olhar imaginativo, o dito licor, do qual eu ia sorvendo no momento em que liberava minha mente para passear nos corredores desta casa, que é um verdadeiro portal para o passado.

Mas infelizmente as horas foram passando no meu relógio, e estranhamente no relógio do quadro também, o que fiz questão de ignorar para não ficar impressionado com a situação. E lógico; nem passou pela minha cabeça comentar sobre este assunto com os que ali estavam, pois sem dúvida iriam me chamar de louco, ou pelo menos dizer que eu estaria embriagado. E como não gosto desses pensamentos errados sobre mim, preferi evitar ficar olhando para aquela pintura. Mesmo porque aquilo já começava a me atormentar. Então, levantei-me para ir embora. Já estava tarde e ainda por cima, eu já estava um pouco tonto. Aproveitando da situação os outros convidados também fizeram o mesmo, levantaram-se todos para se despedirem.

Nisso, a moça, filha do Sr. Fontana, se ausentou momentaneamente para procurar a Brenda que havia desaparecido. O que era um pouco estranho, porque ela, a cachorra, segundo me relataram naquele momento, assim que ouvia o barulho da porta se abrindo largava tudo o que estava fazendo para correr até a porta ver quem chegava ou saia. Mas isso não era relevante para mim naquele momento. Pensando assim tratei de me despedir de todos os que ali estavam, pois tinha que ir embora sem o quanto antes. Não podia me demorar mais. Afinal de contas passava da meia-noite. E como teria de acordar cedo tratei de me apressar em sair logo. Mas para isso era preciso, para não ficar chato, me despedir de todos que ali ainda estavam. Primeiro foram os outros convidados, depois, lógico, os proprietários da casa. Seguramente que eu queria ver nos olhos da filha mais velha do Sr. Fontana no momento da despedida. Digamos que fiquei atraído por sua beleza.

Então, após procurá-la pelas dependências do andar térreo, pelos quais pude circular obviamente, encontrei-a em companhia de seu irmão à procura de Brenda pela casa. Estavam em uma das grandes salas indicando e falando de que um som, nunca antes ouvido por eles, saia de uma das paredes daquele cômodo. Estranhamente, após intensificar o tal som, todos percebemos um enorme volume se formando no alto da parede, atrás do papel que a forrava. Além da gargalhada que dilacerou nossas almas no instante em que ouvimos. De repente, aquele volume na parede desceu até perto de nossas cabeças e fez estourar o papel. Tal situação me deixou apavorado assim que vi a cachorra ser cuspida detrás do papel de parede. Ela caiu ao chão sem vida, com seus ossos todos quebrados, e fora arremessada como se fosse uma almofada velha. Aquilo era como se a própria casa estivesse viva, e querendo se vingar de alguma coisa.

Bom, depois daquilo tudo, com certeza não pensei duas vezes, peguei meu chapéu, que já estava sobre um sofá, e tratei de sumir o mais rápido possível. Quanto a bela moça, quem sabe um dia nós pudéssemos nos encontrar, mas bem longe daquele lugar assustador. Porém, isso, só seria possível se eu voltasse a me comunicar com essa gente. O que não foi o caso. Semanas após este incidente li num jornal que a mansão dos Fontana havia sido demolida, mesmo sob os protestos dos conservadores mais fervorosos da região. A demolição do imóvel centenário aconteceu sem explicações plausíveis, e isso, claro, aconteceu diante de uma multidão de curiosos, Sinceramente falando, me senti aliviado. Fiquei tranqüilo depois que li a matéria. Pude assim passear pelas calçadas do bairro. Coisa que não fazia desde a época daquela maldita visita.

Agora, quanto ao Sr. Fontana e seus familiares não tive mais contato. A idéia de me encontrar com moça que estava flertando, naquela mesma noite eu a abandonei, e no instante em que saí da casa. Porém, em um dia qualquer, eu a encontrei caminhando pela calçada do outro lado da rua de minha casa. Imediatamente corri para dentro e me tranquei. E depois disso resolvi me enclausurar em minha própria casa. Pelo menos assim não corria o risco de ver coisas estranhas acontecendo por aí. E com esse pensamento vivi durante os 47 anos que me restaram. Hoje em dia vivo perambulando pela casa com mais uma porção de gente dividindo o mesmo espaço. Mas veja só que coisa estranha, a mulher do casal é a mesma com que eu, enquanto pessoa, estava querendo me enamorar naqueles anos anteriores. Sim, a filha do Sr. Fontana. Até sinto graça disso tudo. Mas não tenho vontade de torcer o pescoço daquele gato que fica urinando nas paredes da minha adorável casa.

Oiram Bourges 07/03/2005


posted by Oiram Bourges 9:35 PM

 
SUPERAÇÃO

Em alto mar posso sentir
O momento em que a grande onda surgir
Meu barco não é dos maiores
Mas a minha vontade de vencer o desafio é
Minha embarcação encontra-se à deriva
Porém, em breve estarei satisfeito
Recompensado pelo esforço empreendido
Gozando de enorme felicidade
E com a cabeça erguida poderei dizer
Estou vivo e seguro naquilo que digo
A vontade de desistir é grande
Mas superar tal vontade é melhor
Com certeza serei motivo de orgulho
Serei reverenciado pelos menores
E admirado pelos maiores
Tudo isso porque enfrentei
A grande onda no mar.

Oiram Bourges 11/10/2001


ENAMORADO

Sentado à mesa da sala estava eu
Munido de papel de carta, tinteiro e boa música
E com pensamentos que viajaram longe
Trouxeram inspirações para uma carta escrever a ti
Narrei situações, descrevi lugares e vidas
Deixei a pena sobre o papel livre a correr
Teci uma história, encantadora por sinal
Livre das travas que costumamos criar
Contei-lhe que por campos floridos passei
Altas montanhas avistei, e as subi
Porém o papel terminava, tinha chegado o final
Então, para encerrar esta em bom estilo
Disse apenas o que precisava para o momento:
Em sentimento, amei-te
Com carinho, amo-te
Para sempre, amarei-te.

Oiram Bourges 02/03/2005


TRÊS EM UM

Corria, corria muito, corria sem parar
Até não mais agüentar
Viver com alegria ou não tanto faz
Com o olhar perdido no horizonte
O meu pensamento fez surgir
Tempo longo de prosperidade
Em simples época de paz
Meu sorriso de pura serenidade
Favor, um simples poderia ser
Sempre estarei aqui
Com ou sem ninguém por perto
O sorriso foi sincero, mesmo longe
Amor, quis te abraçar tanto
Faço do jeito que quero, assim.

Oiram Bourges 22/03/05


posted by Oiram Bourges 1:17 PM


Sábado, Março 12, 2005

 
Da série: Ao correr dos caracteres (7)

Um passado assustador

No início da Rua Benevides Fontoura está localizado um casarão de dois andares. Na casa com quase setenta anos de idade funciona uma pensão e uma estranha história que vez ou outra intriga seus hóspedes. O casal de alemães responsáveis pela construção do imóvel veio de seu país de origem tentar uma vida nova aqui no Brasil. Edhel e Friedrich temiam que as idéias do partido Nazista não fossem tão boas como se comentavam na época. Dessa forma, resolveram deixar sua pátria e evitar um possível pior. Mesmo sabendo das dificuldades que iriam passar por