Valleta Culltural

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Sábado, Abril 30, 2005

 
Da série: Ao correr dos caracteres (8)

SINAIS

Na segunda loja de ferragens que mais vendia na cidade trabalhava uma equipe de quinze funcionários, entre faxineiros, vendedores e o gerente. Aparentemente uma simples faceta do cotidiano de uma cidade grande, mas não para um dos funcionários da empresa. No cargo da gerência estava Manoel Brandera, sempre pronto para solucionar qualquer possível problema, apesar de ultimamente ele estar demonstrando problemas de ordem psicológica. Jurava para seu patrão que haveria uma invasão na cidade por um pessoal com intenções nada amigáveis. Afirmava ainda que iria usar os produtos de todas as lojas de ferragens para seus atos. E como iriam conseguir tais produtos? Através de saques. Isso era o que ele dizia todo apavorado quando lhe era perguntado sobre o assunto, porém não sabia quando isso iria acontecer. Uma outra pergunta feita pelos companheiros, mas claro que feita com ironia, seria de como ele sabia de tudo isso, sendo que ninguém nunca teria ouvido falar disso. Sem saber responder, ou pelo menos fingindo não saber para evitar ser chamado de maluco mesmo já sendo tachado disso, não queria dizer, evitando assim maior constrangimento.

O tempo foi passando e seus companheiros continuavam a zombar de Manoel, perguntando onde é que estavam as pessoas que iriam saquear as lojas de ferragens. O proprietário ria das piadas mas ficava pensando que aquela situação não iria ficar bem para seu gerente, pois aquilo era um nítido sinal de distúrbio mental, para não dizer loucura. Mas por incrível que parecesse seu desempenho na loja ainda era exemplar. Enfim, era esperar um pouco mais antes de tomar qualquer decisão. Aquilo poderia ser apenas um momento de fadiga ou sintomas de estresse. Mas parece que esse momento estava apenas começando, pois um dia Manoel deu um grito desesperado em sua sala e pediu para que todos viessem ver o sinal deixado em sua mesa. Os que não estavam atendendo foram correndo ver o que estava acontecendo. Chegando lá viram apenas um punhado de pregos em cima da mesa formando um desenho de seta, apontada para homem que alertava do possível ataque. Nem precisa dizer que todos riram da cara dele. O dono de estabelecimento resolveu conversar com seu gerente e perguntar o que estava acontecendo. Chegou até a cogitar uns dias de folga para que as partes emocional e racional voltassem a sua normalidade. Afinal de contas era um dos melhores, se não fosse o melhor funcionário que ele teve na loja até o momento. Mas se a situação continuasse dessa maneira teria que tomar medidas drásticas.

Sentindo-se perturbado e um pouco desorientado pela situação em que se metera, Manoel não teve outra opção, resolveu aceitar uns dias de folga que foram cedidas pelo patrão. E na medida que os dias iam passando, as idéias de que iriam (alguém) invadir a cidade para cometerem atos terroristas iam enfraquecendo. Após oito dias de descanso forçado, mas merecedor, o fiel gerente da loja resolve voltar a loja. Todos o receberam com satisfação, pois ele fazia falta naquele ambiente de trabalho. Não pela pessoa, porque achavam que era um pouco maluco, mas pela competência com que desempenhava seu serviço. As semanas passavam e seus colegas comentavam entre si que parecia que as coisas estavam voltando ao normal, as conversas eram referentes ao Manoel, ou pelo menos sobre a maluquice que estava dizendo antes de tirar alguns dias de folga. Enfim, para a tranqüilidade de todos, parecia que o assunto de conspiração chegava ao seu final.

Mais semanas se passaram e o cotidiano da loja volta ao normal por completo. A rotina da função de gerência, ou o ¿faz tudo¿ era muito cansativa, mas conseguir se ocupar a ponto de não pensar nas coisas que dizia nos momentos de devaneio era melhor. Manoel sempre era o primeiro a chegar e o último a sair, claro que por este motivo seu horário de almoço era maior que dos seus colegas. Certa vez, durante sua refeição sentiu uma dor repentina no estômago, mas não era uma simples dor, e sim de grande intensidade. O que incomodava o pobre homem era não conseguir entender o motivo, pois nunca tivera tamanha dor. Resolveu ir ao médico para fazer um exame, ou pelo menos tentar descobrir o que estava acontecendo com seu corpo. Tirou a manhã do dia seguinte de folga e foi ao especialista. Após alguns exames e já de posse de uma radiografia do estômago, pôde-se constatar que continha um pedaço muito pequeno de metal em seu aparelho digestivo. O médico em tom irônico perguntou se ele costumava comer metais junto com as refeições. E já complementou também dizendo que certos alimentos já contém Ferro, não havendo necessidade de ingerir certas coisas pra ficar fortinho. Manoel estarrecido com a atitude do profissional nem esperou receber uma receita ou marcar uma nova data para exames aprofundados, se é que iria ter, saiu do consultório sem se despedir. Foi pela rua terminando de abotoar a camisa e vestir o paletó, além de estar resmungando palavrões que ofendiam até a mãe do dito médico.

Chegando na loja nem quis comentar sobre o resultado do exame com ninguém. Imagine se alguém soubesse que por dentro de seu corpo existe um pedaço de metal. Com certeza iriam dizer que a loucura teria voltado. Mas então o que poderia responder se alguém perguntasse? O básico pensou, o médico ligou para seu consultório avisando que devido a um pequeno acidente de trânsito no cruzamento onde ele estava o impedia de chegar a tempo de atender seus clientes naquele horário. Mesmo se nenhum de seus colegas acreditasse na estória inventada, ele iria sustentar até o fim. Afinal de contas não parecia ser uma mentira tão absurda assim para que todos ficassem desconfiando de sua resposta. Porém ninguém perguntou nada. Então Manoel trabalhou o resto do dia e foi embora para casa descansar.

Ao chegar em casa a dor voltou a incomodá-lo, mas agora com mais intensidade que antes. Imediatamente tratou de tomar um coquetel de remédios e resolveu dormir mais cedo para ver se melhorava deste incômodo. No dia seguinte o relógio tocou no horário de sempre, sete horas. E como amanheceu sem dores pôde ir trabalhar sem preocupação. Durante o dia correu tudo muito bem, coisa que dificilmente acontece em sua jornada de trabalho. No final do expediente como de costume, todos os outros funcionários já tinham ido embora, enquanto o gerente ficava até mais tarde para contabilizar as vendas e organizar alguma coisa para o dia seguinte. Tornado assim seu dia mais rentável. Tudo organizado, era hora de ir embora também.

Na manhã seguinte o proprietário da loja ouviu um noticiário pelo rádio que parecia não ter muita importância, mas depois que saiu de casa rumo à loja ficou pensando no que tinha ouvido. Parecia ser algo familiar para ele, porém a noite mal dormida que tivera impossibilitava de lembrar o que era. Chegando na loja por volta das nove e quinze encontrou o estabelecimento ainda fechado e a maioria dos funcionários para o lado de fora. Logo pensou. Basta um se atrasar para os outros tirar proveito da situação, referindo-se ao seu gerente. O patrão saiu de seu carro com cara de poucos amigos dizendo um bom dia quase sem abrir a boca para aqueles que ali estavam. Tirou a outra chave da porta que estava em seu bolso e foi decidido para abri-la. Porém sua chave não girava o mecanismo da fechadura, era como se tivesse uma outra chave por dentro impedindo sua abertura. Pensou um pouco e resolveu chamar um chaveiro para arrombar a fechadura. Acreditou naquele momento que tivesse pegado a chave errada. Depois de mais trinta minutos aproximadamente conseguiram entrar na loja. Imediatamente todos levaram um grande susto, pois não tinha nenhuma mercadoria nas prateleiras. Fomos roubados, pensaram. Porém, aquilo tudo era muito estranho para todos, não tinha marcas de arrombamento, e ainda estava a chave do Manoel na porta, mas se estava a chave dele na porta porque não abrira a loja até aquele momento. Uma única pergunta para muitas pessoas. Começaram a procurar evidências, ou algum vestígio que pudesse mostrar-lhes o que estava acontecendo. Logo mais um susto seguido de gritos e alguns desmaios surgiu ao entrarem na sala do gerente. Os poucos que conseguiram olhar ficaram estarrecidos com tamanha brutalidade. Os olhos de Manoel estavam furados com grandes pregos, com a boca cheia de porcas e parafusos, suas mãos estavam pregadas no próprio peito, no pescoço tinha um colar bem justo feito com arame farpado. Atrás de sua cabeça estava sem cabelos, na verdade estava sem pele também, fora usado um ralador de legumes para destruir o couro cabeludo daquela região. Seu abdômen estava inteiro furado, como se tivesse levado vários tiros de escopeta, mas na verdade tinham sido feitos por parafusos de diferentes tamanhos, e estranhamente feitos de dentro para fora. E para completar a horripilante cena, aqueles que ainda conseguiam ficar no recinto, com a ajuda do gerente que estava indicando para o teto com um dos dedos da mão direita, puderam ler a seguinte mensagem escrita com seu sangue: "Ele dizia a verdade, mas vocês preferiram zombar ao invés de acreditar". Depois disso o proprietário resolveu abandonar este ponto de comércio, e depois que a imprensa divulgou o ocorrido ninguém quis alugar o imóvel. Meses mais tarde a prefeitura após conseguir a devida autorização destruiu o imóvel, pois recebia freqüentes reclamações da vizinhança, que alegavam ouvir vozes estranhas, e vez ou outra eram espirrados pregos lá de dentro em direção à rua.


Oiram Bourges 25/11/2002

















posted by Oiram Bourges 6:24 PM


Sexta-feira, Abril 22, 2005

 
Da série: Ao correr dos caracteres (16)

Uma ópera em quatro atos

O mundo das óperas e concertos de músicas clássicas sempre foi repleta de fantasias e muita pompa. Então quatro amigos combinaram de ver uma ópera de Rossini que estava passando no melhor teatro da cidade. Todos estavam empolgados e ansiosos pela noite musical, assim que chegaram ao teatro se dirigiram a um dos mezaninos que estava reservado em seus nomes. "Perfeito"! Dizia o primeiro dos amigos para a arquitetura do local. "Esplêndido"! Dizia o segundo. "Exuberant"! Dizia o outro com sotaque francês enquanto enrolava seu vistoso bigode e agitando uma bonita bengala com o cabo de madre-pérola. É, parece que é mesmo...Dizia o Zé.

Logo no primeiro momento da ópera as emoções foram realçadas com chá de maçã com canela, servido em xícaras de porcelana inglesa para três dos amigos apenas. O Zé preferiu roer um pedaço de rapadura trazida de casa por ele. Os outros se olharam e murmuraram palavras de reprovação, o primeiro esboçou; coitado! O segundo; assim não dá! E o terceiro alisando seu cavanhaque dizia, "detestable"! O Zé nem ligou, e então passou a chupar para fazer menos barulho. Os três rostos simultaneamente ficaram distorcidos neste momento tão inusitado.

Durante o solo da jovem soprano (aquela mulher que tem seu corpo reforçado, mas que canta fininho) o público delirava quando esta alcançava os tons mais altos de sua voz. Alguns particularmente falando, chegavam a chorar de tão emocionados que estavam. O Zé? Hum! Este encontrava-se empoando o nariz sonoramente neste momento de tamanha magnitude. Um dos amigos quase desmaiou ao ver este disparate, mas foi acudido pelos outros dois. Mesmo assim, íntegros que são, não desviaram suas atenções do belíssimo musical, e ainda dizia o primeiro: Belíssimo! O segundo; maravilhoso! E o terceiro; não disse nada. Estava limpando o bigode e o cavanhaque grudados de saliva, pois este quase desmaiou. Porém, logo havia se recomposto por completo.

Terminada a ópera saíram todos animados, felizes e cheios de classe no caminhar. Pelo menos até a saída, quando o Zé pediu ao terceiro amigo, aquele do bigode vistoso e cavanhaque para que devolvesse a bengala, porque este era o acessório de seu avô. Ao saírem do teatro todos os três agradeceram o amigo Zé polidamente ter proporcionado (pago) uma ótima opção de lazer. É, até que foi bom, dizia o Zé de maneira simples e olhando para a sola de seu sapato que estava grudada em uma goma de mascar.

Oiram Bourges 15/09/2003


COMO É QUE É?

Garçons corriam de um lado para outro
Com afã para limpo tudo deixar
Era noite de grande festa
Era noite de bailado no salão do palácio
Todos alegremente a dançar e a matraquear

Garçons corriam de um lado para outro
Com afã para imiscuírem-se na vida alheia
Até um relâmpago fazer a terra atroar
O ribombo revelou os pávidos
Debandaram-se todos, até o rei

Garçons corriam de um lado para outro
Com afã para dos atavios desviar
Taças e cadeiras espalhadas pelo lugar
Lascas, pedaços, sapatos ao ar
Lúgubre então ficou o salão

Garçons corriam de um dado para outro
Com afã para de suas vidas salvar
Assobios eram largamente ouvidos
Tremores, gritos e tudo mais
Foram ouvidos como sinais

Garçons corriam de um lado para outro
Com afã para tentar alertar
Que esta história sem pé nem cabeça
Irá finalizar de maneira drástica
Assim, como fora o resto do texto.

Oiram Bourges 22/04/2005

posted by Oiram Bourges 11:33 PM


Domingo, Abril 10, 2005

 
Da série: Ao correr dos caracteres (9)

O corpo viajante

No primeiro domingo do mês de janeiro de setenta e dois, alguns meninos foram ao rio que passava perto de suas casas para pescar, conforme tinham combinado na passagem de ano. Logo nos primeiros minutos da atividade, um dos pequenos pescadores encontrou uma grande caixa de madeira boiando, ou pelo menos parte dela, nas águas do rio. Curiosos, resolveram saber o que tinha dentro daquele enorme objeto. Quando chegaram perto descobriram que era uma urna funerária, mas faltava saber se estava vazia ou não. Um deles tomou a iniciativa de puxar o caixão para a margem, uma ação que logo foi seguida pelos companheiros. Com um pouco de coragem resolveram abrir para ver se tinha algo, ou alguém dentro. Levaram um enorme susto, pois na verdade tinha um homem na "embarcação" recolhida por eles. Porém o corpo era de um desconhecido, e pela sua aparência já fazia alguns dias que estava morto. Mesmo porque, por estar completamente molhado o estado em que se encontrava não era dos mais agradáveis de se ver. De imediato um deles foi avisar os pais sobre o acontecido enquanto o resto tomava conta do tenebroso achado. Eufóricos tentavam descobrir através de palpites quem era e como morreu. Aproximadamente uma hora mais tarde estava de volta o garoto e com ele um bando de gente entre pais, alguns familiares, e claro a polícia que também já deixou avisado o ocorrido à única empresa funerária da cidade. Resumindo, vieram quase todos da cidade. O açougueiro pensou em dar uma olhada para ver se conhecia o defunto, mas desconfiou que alguém poderia insinuar que futuramente a população da cidade poderia estar consumindo carne humana no lugar de carne de gado ou de porco. Mas as autoridades da cidade estavam preocupadas com o ocorrido, pois ninguém conseguia descobrir quem era nem como foi parar uma coisa dessas num rio.

Voltemos um pouco mais na história então. Há três semanas durante uma discussão com o proprietário de um pequeno bar da cidade vizinha, morre de enfarto um de seus melhores clientes. O dono de estabelecimento resolve reparar o dano causado por ele, mesmo que indiretamente, mas para não ficar mal falado na redondeza decidiu pagar todas as despesas do serviço funerário, incluindo o caixão. Porém no dia em que o corpo ia ser velado pelos familiares e amigos, caía uma forte chuva. Isso dificultou muito o serviço da funerária, ela teria sido contratada para levar o defunto do hospital onde teria feito um exame para descobrir o real motivo da morte até a casa da viúva. E como as estradas estavam encharcadas devido a chuva que caiu nos últimos dias, a lama foi o motivo para que o carro derrapasse por várias vezes até bater com a parte de trás do veículo em um barranco perto do rio. Isso fez com que abrisse a porta traseira, e num passe de mágica a esquife não estava mais dentro do automóvel. Mas isso só foi percebido alguns metros adiante quando finalmente numa grande subida tudo parou de vez. E após terem combinado quem iria empurrar o carro para desencalhar perceberam que a porta estava aberta e não tinha mais nada dentro do carro além deles. Um desespero total foi aquele momento para ambos. Procuraram por alguns minutos, mas a tentativa foi em vão. Como iriam explicar o ocorrido para os familiares e amigos seria difícil saber. Então resolveram criar uma alternativa para tal tragédia. Passaram novamente pela agência funerária e após se explicarem para o proprietário do estabelecimento pegaram um novo caixão, em seguida pararam no cemitério para ver quem tinha sido enterrado por último. Por sorte descobriram que tinha um que fazia pouco tempo que estava lá. No maior segredo pagaram ao coveiro uma boa quantia para ajudar a retirá-lo do túmulo e colocá-lo no novo caixão. Por sorte o finado aparentava ter o mesmo peso daquele que tinha sumido no rio. Agora teriam que inventar uma boa desculpa para que os familiares e amigos não pudessem vê-lo na urna funerária, ou então os dois é que iriam morrer.

De volta ao caminho que levaria ao local do velório. Motorista e ajudante quietos, mas roendo o pouco de unha que ainda existia em seus dedos. De repente começaram a tagarelar coisas sem sentido e sem parar, provavelmente tentando achar alguma maneira de se livrarem desta enrascada. Até que descobriram um jeito de burlar tal situação. Era inusitada, mas poderia dar certo. Aliás, tinha que dar certo. Saíram do trajeto que estavam fazendo para pararem num sítio que tinha umas vacas leiteiras pastando perto da cerca de arames. O motorista pegou um monte de bosta que estava próximo à cerca com um saco plástico, e rapidamente colocou dentro do caixão, lacrando-o imediatamente. E com a mesma velocidade entraram no carro e saíram em debandada estrada afora levantando tanto pó que até parecia um cometa. Com uma hora e meia de atraso eles chegaram na casa do defunto. Ou melhor, na casa onde o antigo defunto enquanto vivo morava. Conseguiu entender? Então continuemos. Ao som de muitas reclamações e pouca ajuda o caixão foi retirado do carro, mas a advertência foi dada imediatamente. O motorista foi logo avisando que ninguém poderia abrir a esquife. Vendo que não tinham entendido o que dissera, resolveu repetir. "Devido ao adiantamento do estado de decomposição do finado ninguém poderá abrir o caixão". Houve alguém que retrucou tal aviso dizendo: "que adiantamento que nada, foi é atraso por parte de todos que cuidaram do caso". Claro que os dois nem resolveram dar continuidade a discussão. Engoliram as salivas a seco e montaram guarda ao lado do principal motivo do atraso. Só para terem certeza que não iriam abrir a tampa. Se bem que, do jeito que estava fedendo aquela merda, as pessoas do recinto não teriam tanta coragem assim.

Lá pelas tantas, a sala era o lugar da casa menos agradável de se ficar. Como fazia muito calor naquele dia, os familiares resolveram adiantar o sepultamento. Buscaram o padre da vila para fazer uma oração. Porém a casa estava fedendo de uma certa forma que aquela madeira chamada de canela bosta (usada por famílias com condições financeiras não muito boas) parecia perfume francês. O padre quando chegou no local fez uma careta incrível e parou na parte externa da casa. Disse que devido ao calor estava se sentindo mal, e que encomendaria o corpo do lado de fora mesmo para evitar um possível desmaio. Óbvio que ninguém acreditou, mas também nem se opuseram ao argumento dado. Pelo contrário, todos resolveram passar para o lado de fora da casa para orarem. Reforçando ainda mais a desculpa esfarrapada dita pelo religioso. Como tinha gente que estava quase vomitando pelo quintal nem aceitaram ao cafezinho ofertado pela viúva. Devido o mosqueiro que se formou dentro da casa nem perderam muito tempo ouvindo as orações, voltaram para dentro do imóvel e trataram de pegar o caixão, mas isso depois de tirar no palitinho quem iria pegar as alças daquela fedentina. Devido a correria no local quase ninguém ficou para o enterro. Muitas desculpas surgiram para evitar a ida ao cemitério e participar da cerimônia final. Porém, mesmo depois de muita gente dizer que não iria ao sepultamento, o que aconteceu foi justamente ao contrário. Em torno da sepultura estava fervilhando. Não pelo defunto, mas para contar quantas pessoas compareceriam no horário em que finalmente o gerador do mal cheiro seria enterrado. Enfim, praticamente todos os que estavam no começo do velório compareceu ao evento. Cada um com sua desculpa pouco convincente. Afinal, o povo queria estar na hora do último adeus, e ao mesmo tempo ver quem é que iria ficar até o fim da cerimônia sem torcer o nariz. Terminado o show todos voltaram às suas casas, pelo menos quase todos. A viúva foi para casa de uma prima ficar uns dias até que situação de sua casa voltasse ao normal. Mas para isso ela sabia que teria que desinfetá-la. Após lavar por dentro e por fora, e mais uns dias para sumir o mau cheiro por completo, a casa poderia ser habitada novamente.

Sabemos que essa não era a verdade da história, pois o defunto (principal) estava em outra cidade. Como ninguém sabia de qual localidade era aquele corpo as autoridades resolveram fazer uma rifa do finado. Os agricultores da região queriam ganhar o lote, digo o corpo para poder esparramar em suas terras como adubo. Já a pequena clínica de fraturas existente queria transformá-lo em modelo para mostrar a população a melhor maneira de se tirar radiografia, mas claro que isso depois de dissecá-lo. Agora a criançada que o achou queria por todo custo a sua posse, pois queriam transformá-lo em espantalho. No final das contas ele acabou virando comida de cachorro. Num descuido das autoridades dois cachorros grandes conseguiram entrar no necrotério pela porta dos fundos e se depararam com a carcaça do pobre homem em cima de uma mesa, não demorou muito para que o corpo se resumisse em cabeça, parte do tronco, pescoço e pedaços dos membros. Dias mais tarde o resto do homem sumiu de vez, mas ninguém sabe como isso foi acontecer. Já o mercado possuía uns cortes nobres de carne.

Oiram Bourges 03/03/2003

posted by Oiram Bourges 9:45 PM

Todo escritor teve algum dia um singelo começo


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