Valleta Culltural

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Sábado, Julho 02, 2005

 
Da série: Ao correr dos caracteres (14)

A grande festa

Sabemos que grande parte das pessoas gosta de festas, sejam elas quais forem. Tempos atrás fui convidado por um amigo para comparecer na cerimônia de casamento de seu filho, não pensei duas vezes, aceitei no ato. Lembro-me bem do evento, foi memorável. A igreja estava bela com todas aquelas flores e velas, muitas pessoas bonitas, e algumas nem tanto, mas serviam para completar a cena. A cerimônia transcorreu tranqüilamente, e dentro do normal. Com momentos empolgantes, cansativos, chorosos e felizes, como acontece em todos os outros. Terminado aquela coisa sempre igual, partimos todos para a melhor parte de todas, o restaurante. Chegando lá já encontrei um conhecido, estava meio perdido no meio da multidão. Confesso que também me sentia dessa maneira, pois conhecia apenas o pai do noivo até então.

Com garçons eficazes servindo o pessoal achei que era hora de começar a beber algo, e pedi logo de cara uma doze de whisky. Coisa fina! Era um daqueles escoceses quinze anos, meu conhecido pediu um coquetel que estavam servindo na ocasião. Não sei o que era, mas pela variedade de cores achei melhor não arriscar. Poderia me fazer mal. Mas voltando um pouco, posso dizer que festa estava bacana, e não era minha opinião apenas. Umas poucas pessoas que cheguei a conversar disseram a mesma coisa. A única coisa que começava a me incomodar era a algazarra feita pelo povo no salão, muitos gritos de ¿viva os noivos¿ e coisas do gênero eram esparramados ao léu, só para dar aquele clima de animação. Isso aconteceu pelo menos até começarem a servir o jantar, porque depois que foi liberada a banca com a comida, um certo silêncio tomou conta do lugar, pelo menos até acabarem com o banquete. Acredito que nem preciso dizer o quanto essas pessoas beberam nesse ínterim. Alguns convidados, aliás, bebiam a parte dos outros de tão empolgados que estavam, mas nem os censuro por isso. Afinal era uma grande festa.

Lá pelas tantas, depois da comilança, a maioria dos convidados incluindo a mim, estavam bem contentes, em certos momentos dava-se para ouvir as gargalhadas de um grupinho de moças gordas sentadas num canto do salão. Daquelas que o povo costuma chamar de encalhadas. Provavelmente estavam fazendo o casamento das colegas de peso com os jovens rapazes que ficavam desfilando de um lado para outro atrás das outras que seriam realmente as beldades da festa. Claro, as brincadeiras serviam para esquecer um pouco das piadinhas sem graça ouvidas diariamente. Álcool? Certeza que isso ajudava bastante no processo. Apenas as crianças não precisam disso para ficarem malucas, tanto é que estavam correndo nos corredores que davam acesso à saída do restaurante para poderem escorregar, como se estivessem patinando no gelo, ou algo assim. Algumas delas inclusive, estavam tentando escalar uma das paredes construídas com certo grau de inclinação, parecendo com semi-arcos, para darem um aspecto diferente ao lugar. Na verdade era uma frescura a mais para tentar deixar a arquitetura mais bonita.

Todos sabemos que um casamento de verdade não pode faltar o arremesso do buquê, logicamente que este não foi diferente. Enquanto a noiva se alinhava para evento mais importante para as solteironas de plantão, desfilava no salão um tipo estranho com um aspecto horrível e um microfone em punho anunciando com voz meio embolada, típico de quem já está embriagado, que após o ritual do buquê seria servido o bolo aos convidados. Praticamente ninguém (tirando eu) estava prestando atenção no que dizia, talvez nem ele mesmo tivesse. De repente começou a contagem para o lançamento daquele monte de flores já meio murchas para aquelas mulheres sedentas por casamento. Sabe, aquilo me pareceu o lançamento de um foguete para o espaço. Quase acabei acreditando nisso, pois a força do arremesso foi tanta que passou por todas as possíveis candidatas a um futuro casório e parou no colo de uma dona bem velhinha sentada numa poltrona, digo, afundada numa poltrona. E também não foi bem no colo, bateu primeiro na testa da mulher. Sabe, teve muitas versões para o acontecido, eu não pude ver com clareza, estava longe da cena. Além do mais tinha um casal quase transando na mesa em frente a minha. O máximo visto com certeza por mim foi a dona saindo de maca para o pronto-socorro. Para quem ficou no restaurante, e posso dizer que ficaram muitos, restou uma opção, a de beber mais para tentar disfarçar o sorriso besta de suas bocas moles, loucas para darem aquela gargalhada. Eu particularmente falando comi dois pedaços de bolo, e levei um grande pedaço para casa, mas antes disso resolvi convidar uma moça para dançar um pouco. Sim, daquelas desesperadas para arranjar alguém. Quando cheguei perto de uma delas pisei em algo que me fez escorregar. Olhei para baixo e percebi que tinha acabado de moer uma dentadura, acredito que fosse da mulher presenteada pelo buquê. Fingi que fazia parte do meu charme, dei um chute nos pedaços restantes da prótese. Tal movimento espalhou o artefato pelo salão. Quem importa com isso? Pensei. Depois alguém irá varrer isso tudo mesmo.

Olhos grandes me fitando ardentemente, cabelos sendo afastados delicadamente da face com uma das mãos, e as pernas cruzadas completavam o charme das três moças que estavam me olhando. Ao chegar bem perto delas, as três levantaram ao mesmo tempo. Quando me decidi com qual gostaria de dançar, as outras para disfarçar o acontecido disseram ir pegar um pedaço de bolo. Ao som de Frank Sinatra saímos girando por aí, não tínhamos a pretensão de ficar perto de suas amigas mesmo. Queríamos era aproveitar um pouco da festa. Quando estava quase lascando um beijo naqueles lábios carnudos da gordinha o resto do povo começou a aplaudir. Pensei novamente, será que ninguém pode fazer esse tipo de coisa em paz? Então percebi que era para a tia ferida pelas flores, já estava de volta, e fortinha. O passeio de ambulância realmente lhe fizera bem. Ela sorria com sua boca chupada pela ausência da dentadura, fez até menção de dançar. Resolveu então dar uma volta pelo fatídico salão. Por que fatídico? Se você tivesse visto o tombo da mulher não perguntaria. Foi até irônica a cena. Sem olhar para o chão acabou pisando no resto de seus próprios dentes e foi derrubada. Por sorte a ambulância ainda não tinha saído do pátio do restaurante, mas as notícias não eram animadoras para a família. Os enfermeiros atenderam-na no local, porém em vão. A pobre mulher já tinha se aposentado da vida. Restou apenas um corpo espatifado no chão. Se foi triste esta história para quem leu não sei, mas acabei me divertindo um pouquinho com o final antecipado da festa.

Oiram Bourges 17/06/2003

posted by Oiram Bourges 12:02 AM

Todo escritor teve algum dia um singelo começo


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