PAISAGENS REMOTAS
Ah, no doce exílio já tão anunciado até por Deus... Sinais fechados para uma vida... O olhar correndo solto e livre, sem filtros e nem grandes angulares...Tão suave corrompendo vitimas, alterando formas, vislumbrando o belo... Arrebatamento... Mangaba Celestial.
Ah, no doce exílio...Meninas tão quentes como um gole de absinto na taverna carmim...Ninfas jovens sodomizadas ao som de Hendrix...Traças nos bolsos, ouvido carcomido e a doce lembrança do mar... Na gaveta eletrônica do meu computador, a coleção de fotos de garotas que nunca vi abrir a boca molhada, as mãos suadas...Exercício voyeur...Vou seguir nas sombras, quem sabe buscar as serras...A perda sublimada em versos tão tortos quanto a velha arvore, ressequida, miúda, seca, magra...Meu canto no exílio não tem o cheiro da sua pele...Quem sabe uma ultima olhada dentro do seu ventre, me esconder na luz do meu cigarro, acordar após sublimes goles profundos de algo embriagante...Meus deuses, meus anjos, meus guias, meus magos, meus santos em coro, junto ao Cravo, dizendo que devo seguir, todas velas acesas para meu quintal, toda mortalha para meu funeral, verso branco e disforme, prosapoesia e o desejo, ansiedade, inquietude...Irrequieto no exílio, debatendo em cama fria...O perfume dos dias é a fumaça do meu cigarro, é a doença contida no meu lençol...Dêem carona para um rei sem reino.
Os gritos tornaram-se gemidos...No doce exílio não existem ídolos...A vida apenas escorre por entre os dedos... Ah, o mar, seu som batendo nos meus ouvidos enquanto as sombras engolem os versos. Aqui onde ninguém mais pode me encontrar, aqui onde deveras tive amor pela existência, daqui tenho um olhar sem corpo, um olhar distante, como observador assisto a presença do tempo mergulhando a vida em pó, em ouro e pó... Ah, doce exílio, que a lembrança, imagem constante, junte-me aos meus quando na tempestade, todo meu sol, for coberto por nuvens escuras e carregadas...Quero sim, o açoite nos olhos, a vaga na carne, a fenda...O olhar maculado por uma vida de desejos não realizados...
Ah, doce exílio, serpenteio na estrada dos meus sonhos a viagem longa rumo as serras azuis, girassóis regozijam-me...Paisagens distantes...Toda ilusão, toda vontade, todo desejo...Ardendo feito corte de faca, feito palavras rudes, feitos que não valem nada.
Daqui posso ver as sombras que alimentam minha mente...O morto tem sua sombra contida junto ao caixão de madeira escura e fosca.
A neblina nos meus olhos, a cegueira na minha face...Escondo o rosto nas sombras e fico ali, no suave exílio, trago as fotos dos meus pais junto à carteira... A certeza de que fui estrangeiro na vida, um estranho em esquinas, cruzando os sem faces, alimentando um corpo vazio, enchendo um copo tão cheio de magoas...Meu exílio consentido me faz sair de casa todos os dias e em transe e continuar fingindo viver, me faz olhar a neblina tão branca e alva quanto a minha face, as minhas pernas, meu peito...A corrente que levo junto a mim fecha o corpo, moedas nos bolsos e as paisagens remotas das minhas serras tão azuis quanto os olhos de minha amada... Batem as pálpebras...Os olhos estão cansados, no meu doce exílio, os gemidos se confundem com uma oração...O barulho do mar nos ouvidos e o claro escuro da casa vazia...Na estrada de ontem à tarde posso ver o sol queimando o metal dos carros, o brilho dos prédios ao fundo, as serras e o meu desejo de partida...No meu suave exílio, meu cães me esperam para comer, tão ansiosos, tão presentes, tão amigos... Fecho os olhos e adormeço, amanhã terei com Deus enquanto elas caminham nas tardes em jeans Saint Tropez, tão baixos quanto os meus pensamentos.
(Fabio Santiago)
posted by Oiram Bourges 1:02 PM
Todo escritor teve algum dia um singelo começo