Da série: Ao correr dos caracteres (25)
SOB O SOM DA RESSACA
Lindamente vi sorrir na minha frente aquela boca entorpecida de licor. Senti em meus ouvidos algo estonteante, ocasionado pela mente divagante que se solta pelo interior da sala onde nos encontramos, toda pintada de vermelho fogo. Os móveis começam a girar, e com eles os ventos alvoroçam nossos cabelos, deixando-os espalhados, como aquele monte de revistas que estavam sobre a mesinha minúscula do canto, perto do rádio antigo e estragado que ganhei de meus avós.
Tudo naquele ambiente soa perigo quando estou acompanhado daquela boca entorpecida. As línguas voam por todos os lugares, pois os olhos se encontram cerrados. Isso quer dizer que eles não vêem barreiras nem pudores. E se eles não conseguem ver, eu é que não vou me esforçar para isso. Então, quando estávamos quase dormindo sobre aquele sofá parcialmente manchado pelo tempo, alguém nos chama para sair... para passear um pouco. Coisa sem utilidade, no meu ponto de vista. Mas, enfim, dormimos de vez.
Em meus sonhos posso ver, sob uma camada de espessa fumaça, alguém dançando nas ruas úmidas enquanto todos, os que ali não estão, ouvem Rina Ketty numa suave e adorável canção que ecoa por todo o lugar. E eu, ainda no sonho, sento no meio-fio para ver o bailado, quase que desconsertante da bela moça com sua saia curta a mostrar, entre uma volta e outra, suas pernas roliças, separadas apenas por uma minúscula calcinha. Ah! Adorável desespero. E eu aqui, dormindo, feito um anjo... caído, de costas, neste sofá empoeirado. Como se fosse um lençol velho usado para cobrir móveis em casas abandonadas.
Então, quando eu já estava me refestelando sobre um mar de são sei o quê, fui acordado, sem motivo aparente, para fazer o desjejum. Ainda embriagado por um prazer impalpável percebo que ali não é uma casa conhecida. Casos que resolvo fazer o que deveria ter feito a tempos. Comer o máximo possível, depois, quando não mais agüentar com essa comilança toda resolvo dormir um pouco mais. Para, mais tarde, pegar pelas mãos daquela boca, ainda entorpecida, para caminhar pelas ruas até que nós nos percamos de uma vez.
Oiram Bourges 14/11/2005
posted by Oiram Bourges 1:12 PM
Da série: Ao correr dos caracteres (19)
DOMINGO
Ouviam-se os primeiros pingos da chuva fina e suave no zinco da calha enquanto Dorotéia, Matilde e Júlia preparavam um bolo para o chá da tarde. Neste momento eu observava Adolfo sentado à mesa da sala principal escrevendo cartas com sua maravilhosa caneta tinteiro trazida da Europa. E escrevia-as de maneira radiante, certamente por estar de posse de sua nova e tão esperada aquisição. Mas também era o único com esse estado de espírito daquela tarde fria. Respirávamos todos um certo ar de monotonia naquele momento. As crianças aborrecidas por não poderem brincar no quintal, eu olhava para todos os lados sem fixar a visão em nada. Jonas tentou cantarolar alguma música, mas sem sucesso. Era um sinal característico de que nós estávamos visivelmente sem assunto para discutirmos.
Com um pouco de desânimo resolvi me levantar e ir até o canto da sala onde estávamos para colocar um disco na vitrola, e assim, tentar melhorar os olhares dos que ali se encontravam. Coloquei um disco de Bach, ouvimos a metade de um lado apenas. As crianças dormiram no sofá, Adolfo preparou seu cachimbo e o acendeu, Jonas recostou a cabeça na parede para um breve cochilo, e eu fiquei sem saber o quê fazer, por mais uma vez. Levantei-me novamente e fui trocar o disco, trocar por algo mais animado talvez, ou quem sabe por algo mais novo, mais atual. Porém, antes que pudesse me decidir o que pôr para ouvirmos o aviso de lanche fora dado.
Nos sentamos à mesa da cozinha mesmo, assim ficaria um pouco mais aconchegante, devido o calor do forno. Consecutivamente serviria para descontrair um pouco as nossas caras amarradas, provenientes da baixa temperatura, que se acentuou ainda mais depois dessa fina chuva. Não demorou muito e todos começaram a falar e a rir, como na hora do almoço. Parecia até uma festa. Ficamos por quase uma hora sentados à mesa conversando, contando algumas anedotas, e logicamente, comendo. Estava começando a ficar tarde, então Júlia sugeriu que fossemos todos à outra sala.
Alguns se ofereceram para ajudar na limpeza da louça, mas como já estava anoitecendo não permitimos que os visitantes tivessem seus tempos encurtados pelo motivo da limpeza. Contudo, fizemos isso para que eles ficassem relaxados quanto à limpeza. Então, oferecemos-lhes um pouco de descanso nos sofás, e ao mesmo tempo se sentissem à vontade para se levantassem e fossem embora. Logicamente que Júlia colocou-os em lugar estratégico para que isso acontecesse. Nos ditos sofás vêm, freqüentemente, rajadas de ventos de todos os lados da casa, pois ficam no caminho de três grandes portas. O que os tornam móveis e os ambientes bastante arejados. Enfim, as horas iam passando e a casa estava ficando fria.
Lá pelas tantas os convidados se levantaram e disseram que iriam embora. Não nos opusemos, nem dissemos para ficarem um pouco mais. Afinal de contas estávamos querendo ficar sozinhos novamente. As visitas tinham nos cansado. E assim mesmo eles relutaram em sair de uma vez, ficaram diante da porta encontrando assuntos para prolongar ainda mais a conversa. Adolfo sacou de seu cachimbo e o acendeu dando longas baforadas enquanto observava, debaixo da marquise da entrada principal, as crianças correrem pelo jardim. Mas perceberam, com a nossa mudez, que queríamos ficar sozinhos. Então partiram para suas casas. Finalmente, pensei. Nos recolhemos e tratamos de acender a lareira e ligar a vitrola. Assim pudemos descansar aquecidos ao som de uma bela música. E claro, nos deliciar com um vinho de ótima safra.
Oiram Bourges 21/03/04
posted by Oiram Bourges 3:16 PM