Valleta Culltural

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Quarta-feira, Março 29, 2006

 
O ENCANTADOR DE FECHADURAS

(parte final)

Na manhã seguinte acordei. Um detalhe: já não era mais tão manhã assim. Passava da hora do almoço o momento de meu despertar. Além de todo meu corpo estar com uma dor sem igual. Como se tivesse apanhado de umas três ou quatro pessoas. Então me arrumei e fui para o serviço. Fui tentar explicar estas faltas sem explicações para meu chefe. Porém, no trajeto de casa para o trabalho acabei desmaiando. Isso aconteceu logo que sai de casa, num terreno baldio que costumo cortar para pegar o ônibus. E por lá não sei quanto tempo fiquei, pois pouquíssimas pessoas se aventuram andar por este local. Consecutivamente, se ninguém me avistasse caído no mato a ajuda não chegaria para me tirar daquela situação. E foi justamente isso que me aconteceu: ninguém me viu por lá. Consecutivamente, eu acordei por conta própria, e ainda no meio da noite. Todo sujo de barro e com a roupa rasgada.

Sendo assim, tive de voltar para casa. Foi aí que percebi que precisava de um tratamento médico ou coisa parecida. Poderia estar sofrendo de algum mal sem ter o conhecimento disso. Então, assim que voltei para casa entrei na banheira cheia de água bem fria, para despertar mesmo. Depois coloquei uma roupa, e rumei ao hospital. Ciente de que já era tarde e que encontraria apenas plantonistas no local. Mas veja como são as coisas; não consegui chegar ao hospital. Depois que saí de casa fui pegar um táxi para garantir minha ida até lá, mas apaguei. Acordei sei lá quantas horas depois dentro de um ônibus em uma vila qualquer da região metropolitana. Sem saber como poderia ter parado naquelas bandas, pedi ao motorista da condução para que me deixasse na porta de qualquer hospital, pois precisava de um tratamento urgentemente. Para o bem da minha saúde tinha um perto de onde estávamos. Está certo que não era o mais adequado para mim, pois se tratava de um hospital psiquiátrico, mas na altura dos fatos serviria.

Assim que desci do ônibus corri para dentro da casa de saúde. Procurei a recepção e expliquei meu caso à moça que lá atendia, e depois disse que necessitava de um profissional para dar um porque para os meus problemas. Solícita, ela me deu atenção e me encaminhou ao médico mais experiente da instituição. E após um longo tempo me ouvindo chamou seus auxiliares para me levarem à sua sala especial. Mal sabia eu que a tal sala especial era um lugar de isolamento. Eles tinham a mim por louco. E eu não era louco. Bom, pelo menos eu pensava não ser um. Só sei que estavam tendo atitudes precipitadas sobre este meu caso.

Como estava muito cansado e sem forças para pensar em algo a mais para argumentar sobre esta atitude do médico, adormeci naquela sala em que fiquei sozinho. Lá pelas tantas acordei em outro lugar, mas nem havia sentido alguém me tirar da sala. E quando comecei a circular pelo local onde tinha acordado, percebi que nem os enfermeiros sabiam que eu havia sido transferido. Inclusive, assim que vi o rosto do médico notei a frustração de suas ações. Como se tudo fosse uma grande novidade para eles. Algo não premeditado. Porém, para que não acontecesse isso novamente eles me agarraram e me amarraram com uma camisa de força e me colocaram num quarto onde tem, em suas paredes, almofadas.

Eu, como já nem sabia o que estava acontecendo comigo, fiquei horrorizado. Por isso, talvez como forma de autoconservação, adormeci novamente. Mas aquilo era tudo muito estranho. Depois da visão que tive há alguns dias atrás da moça e toda aquela situação, minha vida mudou por completo. Mas não consigo entender o que poderia ter acontecido comigo a partir daquela visão. Enfim, e para variar, quando acordei já não me encontrava mais dentro do hospital. Talvez alguém tivesse me ajudado e sair de lá. A dúvida consistia em saber quem poderia me ajudar com essas fugas inexplicáveis. Uma coisa curiosa nisso tudo é que eu saí de lá sem problemas, como que por encanto. E falando em problemas, corri o mais que pude para qualquer outro lugar. Que fosse bem longe de preferência. Infelizmente, parece que as coisas não foram tão simples como eu pensava ser. No dia seguinte passei por uma banca de revistas e li, na capa de um jornal, que um hospital psiquiátrico teve, como um de seus pacientes, uma pessoa que pode ter sido quem roubou as tais agências bancárias. E para piorar minha situação, o retrato falado que ilustrava o periódico tinha a minha cara.

A princípio quis comprar todos os exemplares, mas de nada resolveria, pois, além de gerar uma desconfiança no vendedor eu teria de comprar os muitos outros jornais espalhados pela cidade. Procurei então me esconder por uns dias em alguma outra região do estado. Onde não tivesse muita gente morando no local de preferência. Pensei em deixar a barba e os cabelos crescerem. Mudar o visual e de cidade por uns tempos talvez me fizesse bem, além de me dar paz, bom, pelo menos até encontrar uma explicação lógica para todo este equívoco. Coisa que poderia levar alguns dias, ou talvez semanas para encontrar tal explicação. Enfim, lá estava eu num ônibus de viagem, me escondendo com um casaco, óculos de sol, e chapéu, indo direto para uma cidadezinha qualquer que quase nem aparecia nos mapas, de tão pequena que era. E tudo isso era para tentar solucionar esta confusão.

Chegando na dita cidade que nem me lembro do nome, procurei um hotelzinho para ficar. Depois de horas viajando não estava com vontade de passear pelas redondezas. Queria mesmo era descansar. Estava exausto de tanto pensar sobre o assunto, e também pela viagem. Casos que, na manhã seguinte quando acordei, me aprontei e desci rapidamente as poucas escadas que o prédio tinha, em seguida me dirigi ao modesto salão onde serviam o café. Estava faminto, precisava repor minhas energias. Enquanto tomava meu café ouvia dos funcionários do estabelecimento dizendo para o seu colega de trabalho que um dos bancos da cidade fora assaltado na noite que cheguei de viagem. Muita coincidência para uma cidade daquele porte. Mas nada poderia me afetar, visto que assaltos não são exclusividades de cidades grandes.

Assim sendo continuei tranqüilamente com meu café. No entanto, sei, ou pelo menos pressinto quando sou observado, e havia algo estranho naquele ambiente. Percebi que não deveria permanecer naquela sala por mais tempo. Neste caso, tratei de tomar logo meu café e cair fora dali sem demoras. Levantei da cadeira procurando fazer o mínimo de ruídos, depois passei pelos dois funcionários que ali estavam fazendo-lhes um sutil cumprimento com a cabeça. Assim que recebi, também, um sutil retorno no cumprimento, pensei: deve ser apenas uma má impressão que estou tendo com tudo isso. Em breve, assim que me dedicar ao passeio, todas essas ansiedades se acalmarão.

Como não conhecia a cidade saí à deriva pelas ruas, e mesmo sendo perdida no meio do mapa tinha uma história para ser contada, pois tinha um pouco mais de um século de sua existência. Então, pus-me a caminhar pelas ruas para ver as casas antigas que compunham o cenário local. Fiquei admirado pela beleza dos casarios antigos, e, ao mesmo tempo, duas viaturas da polícia vindo em minha direção. A princípio tentei disfarçar meu nervosismo, mas à medida que os carros se aproximavam meu coração disparava. E parecia que os policiais sabiam da minha situação. Tanto que diminuíram a velocidade, e de um pedaço de papel nas mãos o policial quis me perguntar uma coisa. Mas, antes que acontecesse qualquer coisa pior do que eu já imaginava, tratei de correr o mais que pude em direção contrária aos carros, claro. Pelo menos sabia que até eles me perseguirem demoraria um pouco mais.

Então, como não conhecia a cidade me dei mal rapidinho. Duas outras viaturas mais estavam me aguardando passar pelo lugar onde eu me dirigia. Sem saber do que se passava, aliás, até sabia, mas era tudo um engano, e estava cada vez mais difícil de encontrar solução para o caso. E assim que a polícia me capturou as pessoas da cidade inteira festejaram a feliz empresa dos homens da lei. Então, eu detido, esperava desesperadamente um advogado para ver se me tirava desta enrascada. Porém, como já suspeitava, o Estado não bancaria um excelente advogado para me tirar de lá. Mesmo porque eu já tinha me tornado um prêmio, e para quem conseguisse me capturar receberia os louros da vitória. Que grande ironia isso tudo. Quando os verdadeiros ladrões roubam tudo, ou desviam fortunas não são presos, agora para mim... Nem sei o que dizer deste fato.

No entanto, coisas estranhas acontecem com grande facilidade em minha vida. A prova disso foi que, de madrugada, quando acordei para pedir um copo com água, pois estava com sede, tanto pelo nervosismo como pelo calor que fazia, já me encontrava deitado num matagal há pelo menos dez quarteirões da delegacia. Sabe, nos últimos tempos minha vida passou a ser diferente, desde aquele tempo que parei para tomar um simples conhaque no final de uma tarde fria. Porém, mesmo querendo uma explicação lógica para tudo isso, este não seria o momento ideal para procurar meus direitos ou tirar satisfações. Isto seria, no mínimo, idiotice de minha parte, claro. Ainda mais que todos estavam no meu encalço, e pelo visto, continuarão atrás de mim com a intenção de me capturar depois de mais esta fuga inexplicável. Porém, mesmo sabendo que tudo está errado em minha vida posso ficar aliviado em relação a uma coisa: podem me prender, podem me algemar, podem qualquer coisa; mas ao cair da noite, quando todos estiverem dormindo, inclusive eu mesmo, sairei ileso da detenção, seja ela qual for, ainda que sem saber como.

Bom, e para encurtar a maluca e inexplicável história de minha vida; em qualquer cidade que resolvia viver, que por sinal ficava pouco tempo, tinha problemas. Mas de uma coisa era inegável, sempre tinha dinheiro para viajar, tanto para conhecer como para fugir dos lugares por onde eu passava. E esta mistura de dádiva e maldição me acompanhou até que um dia eu, enquanto procurava um lugar para me esconder de uns carros de agentes policiais, me deparei com a tal moça estranha, aquela que acredito ter me enfeitiçado tempos atrás, e aí então fez um movimento com os braços de maneira teatral e desapareceu diante de meus olhos. Perplexo fiquei olhando para o local onde ela estava e descuidado fiquei até que os policiais me encontraram facilmente. Eu, estático com o que acabara de ver nem percebi a chegada dos homens da lei. Só percebi a presença deles quando já estavam me cercando, e como eram em maior número de pessoas não pude fugir. Contudo, ainda tinha o poder da fuga. Sendo assim, nem reagi à investida, pois sabia que em pouco tempo sairia de lá sem problemas.

Mas alguma coisa aconteceu que não gostei. De todas as vezes que fui preso, durante as madrugadas eu já me encontrava fora da prisão, e desta vez isso não aconteceu. Mas talvez fosse apenas um motivo de cansaço, sei lá. Porém, na noite seguinte o tal milagre da fuga não aconteceu, e nem nas próximas noites. Enquanto isso as autoridades estavam montando meu processo; roubo, assalto e sei lá mais o quê. Resumindo; se não conseguisse fugir da cadeia estaria perdido, digo, confinado por um bom tempo. E a boa notícia não chegou para mim. O período de magia, de encantamento de fechaduras, travas e outras coisas mais se acabou. Não mais conseguia fugir dessas coisas que, para mim, era uma simples atividade que praticava enquanto exercia um sonambulismo bizarro, criado por uma entidade feminina que me abençoou e ao mesmo tempo me amaldiçoou. E tudo isso aconteceu com um encantamento feito com um simples piscar de olhos, e que, naquele segundo encontro, com um simples movimento com as mãos o tirou. Justo no momento que eu mais precisei.

Oiram Bourges 20/03/2006


posted by Oiram Bourges 4:47 PM


Segunda-feira, Março 20, 2006

 
Da série: Ao correr dos caracteres (24)

O ENCANTADOR DE FECHADURAS

(parte I)

Era final de expediente e eu não queria ir embora cedo, pois não tinha nada para fazer em casa de diferente além daquelas mesmas coisas que faço, ou seja, fazer um lanche em frente ao televisor, ou ouvindo músicas enquanto observo a velha e entediante coleção de latas de bolacha em cima do armário da cozinha. Teria de aprontar algo de diferente, mas o que fazer então? Pensei. E caminhando pelas calçadas devagar, praticamente contando passos, resolvi entrar num bar para dar um tempo ao tempo. Sentei-me tranqüilamente numa cadeira que dava visão para a calçada, pedi uma dose de conhaque e fiquei apreciando os movimentos apressados e nervosos das pessoas de volta a seus lares para fugir do vento frio que soprava impiedosamente pelas ruas e alamedas.

E quando eu estava com o olhar perdido, observando o nada, surgiu uma figura estranha no meu campo de visão. Melhor dizendo; durante um gole de conhaque e um pensamento furtivo passou diante da porta do bar uma mulher muito bonita, com os cabelos esvoaçantes e bem arrumada caminhando como se estivesse em câmera lenta enquanto as outras pessoas passavam por ela extremamente rápido. Uma outra coisa que me chamou atenção nisto tudo foi o forte brilho que os transeuntes adquiriram, por outro lado, a bela mulher tinha suas cores opacas e escuras. Parecia coisa de bêbado. Se assim eu estivesse até aceitaria esta hipótese, mas com apenas dois ou três goles de conhaque não causariam embriagues tão grande a ponto de imaginar maluquices como esta.

Agora, o que chamou mais a minha atenção foi o fato dela ter sorrido para mim, como se fosse uma mensagem ou algo que não sei explicar, mas que, tal ato fosse a sua intenção. Bom, de qualquer forma se não fosse isso, daquela hora em diante passou a ser. E depois que todas aquelas pessoas passaram tudo voltou ao seu normal. Eu com meu copo de conhaque, o barman trazendo em sua face um ar de monotonia enquanto circulava pelo bar com seus pensamentos longe. Pensei então que seria o momento ideal para ir embora. Virei o último gole da bebida, paguei minha conta ao quase aborrecido profissional do bar e fui embora. Senti que precisava descansar.

O trajeto até o ponto do ônibus que costumo pegar parecia estar, naquele instante, muito longo. E não sabia porque aquilo tudo estava acontecendo. Não poderia ser pela simples dose de conhaque que tomei, sou acostumado a tomar outras tantas doses iguais aquela. Sabe, eu estava me sentindo estranho. Cada passo que dava parecia estar voltando para trás, e não avançando. Era como se precisasse dar uns quatro ou cinco passos para andar o equivalente a um somente. As ruas pareciam ficar mais largas vez ou outra, e o mesmo acontecia com as calçadas. Além do ponto do ônibus, que costumava demorar cerca de uns quinze minutos aproximadamente para que eu chegasse até ele, naquela noite já fazia uns trinta minutos e nada ainda de conseguir avistá-lo. Não me lembro bem, mas parece que demorei quase uma hora para encontrar meu ponto, e assim tomar o ônibus.

Dentro da condução foi outro martírio, ao contrário do que eu pensava. Ao invés de conseguir descansar da curta, e ao mesmo tempo longa caminhada, com o lugar que consegui para ir sentado, fiquei sim, totalmente agoniado. Parecia que todos daquele transporte me observavam, melhor dizendo, me vigiavam. Eu sentia como se todos ali se debruçassem sobre mim, abafando minha respiração, e impedindo que eu respirasse o pouco ar contido ali dentro. Estava sentindo um certo desespero tentando invadir minha mente, e certamente não demoraria a tomar posse de meus pensamentos. O que poderia fazer para que as coisas melhorassem para mim? A coisa mais sensata obviamente. Descer dos ônibus. Precisava respirar. Precisava fugir daquele lugar claustrofóbico.

Fiz o que queria fazer, porém, não sabia onde estava. Tive a impressão de estar perto de casa quando me decidi por descer da condução. Mas percebi estar totalmente errado após minha descida. E o pior, não tinha noção do lugar onde estava. O vento frio soprava e me atordoava ainda mais. Pensei que já estava para morrer de tão ruim que fiquei naquela noite. Caminhei pela noite adentro. E entre uma tropeçada e outra pelas calçadas tortuosas que faziam o movimento de alargar e estreitar eu fazia o trajeto, e o segui até que pudesse avistar algo que fosse familiar. Não conseguia ver o horário, devido a tontura, mas creio que fiquei nesta agonia durante uma e duas horas sem saber para qual lado seguir.

Por sorte me deparei com uma farmácia que fica para os lados de casa. E fiquei, de certa forma contente, pois sabia que mais algumas quadras eu conseguiria chegar em casa a salvo, porque são eu não estava. Mais algumas tropeçadas ao longo deste último e inacabável caminho, conseguira eu avistar a porta de minha residência. Exausto de tanto caminhar não tinha forças para subir os poucos degraus que compunham a pequena escadaria de minha morada. Foi aí que desabei na calçada. E creio que antes mesmo de cair ao chão já estava dormindo, de tão cansado que me encontrava.

Lá pelas tantas recobrei minha consciência, levantei-me e me firmei do corrimão para subir os degraus. Parei em frente à porta e enfiei as mãos e os olhares nos bolsos da calça para procurar as chaves. E assim que as encontrei voltei os olhos na direção da porta novamente, e tal visão me deixou espantado. Poderia dizer até que isso me deixou aterrorizado, pois não lembrava de tê-la visto assim, totalmente aberta. Seria sinal de loucura? Teria sido ladrões? Não conseguia fixar minha mente em nada naquele momento. Aí então surgiu uma dor de cabeça terrível, o que me obrigou a deixar de pensar. Apenas fechei a porta e fui para meu quarto. Precisava urgentemente de minha cama, tinha de descansar.

O dia amanheceu, mas não consegui acordar a tempo para trabalhar. Aliás, fiquei dormindo o dia inteiro. Não acordei nem para me alimentar. Quando dei por mim já passava das sete horas da noite, ou seja, fiquei desmaiado por praticamente todo o dia. Então saí da cama, precisava comer alguma coisa, pois meu organismo estava debilitado. Sabe, fiquei estranhando quando passei pela porta do meu quarto em direção à sala. Jurava que a porta estava fechada. Enfim, como ainda estava um pouco tonto por tantas horas de sono, nem me apeguei a isto. Sentei-me no sofá para ver televisão de posse de um sanduíche caprichado e um copo de leite. Certamente isso me deixaria melhor.

Após o lanche voltei a ter sono, pois fazia muitas horas sem comer nada. Isso então fez com que me desse uma moleza no corpo. Porém, insisti para não pegar no sono. Afinal de contas tinha dormido demais. Resolvi ligar a televisão para assistir algo de diferente, ou, simplesmente qualquer coisa. Eu só queria assistir algo para ver se esquecia da noite anterior. Que, diga-se de passagem, foi um horror para mim. Então, em frente à tv, via indiferente ao noticiário que o telejornal mostrava até o momento em que começaram a relatar um fato acontecido na noite anterior pela cidade. Na mesma noite de quando surgiu aquela dor de cabeça em mim.

Dizia que um sujeito, sem ajuda de qualquer objeto cortante ou perfurante, roubou três agências bancárias durante a noite. Segundo o delegado: "A coisa mais curiosa é que as câmeras instaladas nas agências, ainda que funcionando perfeitamente, não conseguiram captar nenhum ocorrido. Além do que foi registrado pelas portas dos cofres, que foram abertas como num passe de mágica. Sem o auxílio de chaves ou qualquer outra coisa. Portanto, sem digitais ou imagens, sem suspeitos. Nem um túnel subterrâneo, para facilitar a fuga, fora aberto. Nenhum vizinho sequer sabe do que aconteceu. Ninguém viu nada". O delegado ainda informou que a Polícia Federal, junto com a Polícia Civil estão averiguando este fato inédito. Ainda é cedo para dizer qualquer coisa, mas eles já dizem que pode ter sido um caso de crime perfeito.

Que estranho, pensei. Como conseguiram fazer tal coisa sem que fossem identificados. Deve ser coisa de perito, no mínimo. Continuei pensando. No entanto, o melhor a se fazer, para mim naquele momento, era dormir logo, pois como já não fui trabalhar um dia, e sem motivos aparentes, teria um desconto em meu salário. Isso queria dizer: ter de trabalhar mais para conseguir a mesma quantidade de dinheiro e poder pagar minhas contas. Agora o que me incomodava era não lembrar o que me aconteceu neste dia. Então suposições começaram a surgir na minha cabeça enquanto me dirigia, ainda um pouco tonto, para o quarto. Ainda que me esforçasse, todas as suposições, obviamente, eram sem fundamento. Já que as únicas lembranças que tinha apareciam para mim sob a forma de flashes. Confesso que tal coisa chegou a me assustar. Imagine: as únicas lembranças de uma noite e um dia inteiro vir à memória sob a forma de lances rápidos e fragmentados. Parece até coisa de louco. Mas procurei relaxar para ter uma noite tranqüila de sono.


posted by Oiram Bourges 4:19 PM


Quarta-feira, Março 15, 2006

 
CANTO MAL ILUMINADO

Acabaram de matar meus sonhos... executaram-me sumariamente... homens sem face, sem alma, amantes do dinheiro, da multidão, do descaso, das massas... não sabem o que é solidão, nunca irão saber.... não querem efebos desnudos, amantes obcecados, meninas de calça baixa e querosene, a perfeição oriunda das fendas, dos cortes, da imensidão de um verso descontinuo...congelaram meu corpo numa cama de madeira e por lá permaneço... prima Vera disse-me certo dia.

- O cinema é um mundo de perversos, não queira, irá se dar mal.

Ode aos loucos, aos desconexos, aos prolixos... aos que percebem as suas formas Euridice até nos cantos mal iluminados da cidade de prata... quero tocar-lhe a anca avantajada minha musa, de olhos de vidro. Vou correr sem rumo, cabeça de chumbo fosco, corpo desgovernado num emaranhado de cabos.

Mataram-me durante trinta e poucos anos... o tiro certeiro, as portas fechadas para a vida, para seus grandes olhos senhor Deus fecharam-se num nevoeiro diurno, na luz que se perde nas gotículas de água, no orvalho... Um brinde aos desistentes, aos que sempre perdem, aos que sempre ardem, aos que olham nos olhos e perdem-se no deserto das incertezas, mares de gim em sua lápide, perfume nos dentes.

Queria ter visto seu rosto minha linda antes da partida, mas só puder viver nas suas lágrimas, escorrendo por meu rosto de gesso, pálido, frio... acabaram de matar meus sonhos... como sou só sonhos, curvaram meus olhos para o chão para sentir a terra mordendo os pés.

Fabio Santiago

posted by Oiram Bourges 2:04 PM

Todo escritor teve algum dia um singelo começo


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