ALUCINADO
Impávido subiu as escadas
Correu os olhos sobre os móveis
Ergueu os braços para o céu
Xingou o vizinho cuspiu na janela
Lembrou de sua impotência
Para como os outros de sua espécie
Ergueu os braços mais uma vez
Xingou o vizinho e a si mesmo
Desistiu sentou no sofá
Seu canivete francês fez brilhar
Mais uma vez ficou sério tenso
Com a habilidade de um samurai
Talhou seu nome com o canivete
Seu corpo esguichava sangue e tudo mais
A sinfonia do vizinho cessou
A impotência não mais existe
Seu mundo quase interessante ficou.
António Amarillo Peçanha - 2006
Palavras expostas como fraturas nas paredes caídas
São ditas ao léu feitas para atormentar o óbvio
Calúnias calúnias calúnias por quem são perseguidas?
Pensamentos com desconexões conectados na parte frontal
Oh são simplesmente sensacionais estes que vêm do tal
Absurdos encontrados num jogo incompatível de versos
Encontros casuais arranjos nítidos feitos gordura no vidro
Pasmaceira no universo entorpece a alma do moribundo
Estugado estupefato estupidificado estuporado
Passos desencontrados tropeçam entre si sem cerimônia
A verdade dita de maneira escusa e cheia de dedos
Quem acreditaria num par de meias furadas diante das autoridades?
Besteira descanse não leve a mal a sério ou para qualquer lugar
Usufruindo de mim mesmo chegarei ao desconhecido
Então perguntarei aos botões da blusa sem botões
Que direi eu sobre tu que vem do além aquém outrem
Suntuosas suposições saturadas de sarcasmo solitário
Pode parar pode parar eu quero descer eu quero sumir
Estancar seria uma dádiva espancar seria um prazer
Oh quero sumir quero dormir quero concluir
Parágrafo travessão vírgula ponto e vírgula ponto final.
António Amarillo Peçanha - 2006
posted by Oiram Bourges 11:52 PM
APONTAMENTOS SOBRE A VISÃO E FRAGMENTOS
Por que olhas para mim? por que falas comigo? O que queres ao procurar-me disse o morto sussurrando, não busque meus olhos, nem cores na minha face de gesso, não queira tocar-me, não tente. Seu amigo da luz, apenas olhava o morto, impávido.
Por que não param de surgir idéias, imagens, histórias, ritmos, personagens, cores, texturas, frases, flores... se nada acontece, se nada dá certo. A vida por si só não cede, o tempo continua passando rápido e os olhos já buscam no chão, alento para seguir em frente.
Aliterações, verso fétido, anunciação, a fronte exposta entre flores em meios tons, as lágrimas dos entes ficaram em suas casas desbotadas, cor exata tinham os olhos de seu amigo tão iluminado, que assistia o morto, sozinho em seu calvário, ele apenas assistia.
Por mais que eu tenha tentado, buscado, houve apenas a desilusão, será que estas fixações não vão parar nunca, essa obsessão, essa ardência que não deixa seguir meu caminho em paz.
Queria ter tido uma vida sem música, sem literatura, sem cinema. Queria uma vida normal, longe das quimeras. Uma vida tão linear quanto à do camponês, tirando seu sustendo donde houver, seguindo seu rumo, junto ao solo, junto à terra.
Durepox na sola dos pés, vento frio, copas das árvores mexendo-se, vinho nos lábios, o morto sussurra novamente, não olhe meus olhos meu amigo distante, não se aproxime. Deve-se antes de tudo garantir o ópio para seus lábios, a glorificação de um beijo, os clarins.
Longe de tudo isso, uma vida racional, onde o coração apenas deverá bater, os olhos seguirão o ardor de um trabalho, e o corpo enfraquecerá com o tempo. Os dias sendo feitos para progresso e para a ordem.
O odiado ali, morto, frágil. Entra seu algoz na sala, iluminada por uma pequena janela e pelas velas, balé de chamas... o amigo distante já havia ido embora, os familiares do morto não saíram naquele dia frio.
O inimigo ficou ali fitando os olhos do cadáver já tão inacessíveis, tão inatingíveis. O desafeto saboreou tal momento, como quem saboreia uma pequena castanha numa tarde junto à rede e ao mar.
Por que olhas para mim?? Por que falas comigo?? Tais perguntas são tão inexplicáveis quanto a busca pela felicidade, pela realização de uma vida.
Deve-se seguir sem olhar para trás, seguir sem esperar muito à frente, tantas regras que não funcionam, como jogos de adivinhação.
O morto, era tão vivo quanto os que piscavam ao seu lado, se era morto, foi à vida quem o fez ficar assim.
Fabio Santiago
posted by Oiram Bourges 1:44 PM