Da série: Ao correr dos caracteres
O mundo secreto das reuniões
Lá estou indo eu, mais uma vez, para a reunião. Para mais uma das intermináveis e insuportáveis reuniões, pensei. Daquelas que ninguém se entende. Onde todos querem falar alguma coisa, como que sentindo a necessidade de dizer algo, dizer por dizer, nem que não fosse importante para a empresa ou para o seu Vanderlei, o gerente. Gerente este que vive perdido entre a papelada dos assuntos à tratar, e que passa horas de seu expediente para organizar os papéis, mas que, quando posto em dúvidas, coisa fácil de acontecer, bagunça toda aquela famigeranda pasta marrom em busca de tabelas, organogramas, estatísticas, ou sei lá mais o quê. Tudo para esclarecer as possíveis dúvidas, que sempre há pelo menos uma dúzia delas para cada encontro, e as dúvidas são tanto dos subordinados quanto do subordinador.
Então assim que cheguei na tal sala de reuniões me deparei com o seu Vanderlei de joelhos sobre sua cadeira, que por sinal é toda manchada dos infindáveis cafezinhos que servem nestes eventos, com a cabeça baixa, e as mãos espalmadas sobre a mesa de tampo de vidro enquanto balbuciava, entre um filete de baba e outro, alguma coisa. Porém, esses efeitos podem ser explicados, pois a pessoa que passa a freqüentar uma sala deste tio, depois de um tempo aproximado de cinco minutos, começa a sentir enclausurado, asfixiado, e com a sensação de que todos ali estão te perseguindo. Se bem que, na maioria das vezes a perseguição acontece de fato. Mas o que quero dizer é que estas sensações podem ser causadas pelos cheiros de fritura encalacrado nas cortinas, e de fumaça de cigarro que sempre paira sobre as cabeças dos que lá ficam. Além, é claro, do clima tenso gerado pelas incalculáveis discussões, e que geralmente nos levam a crer que atos insólitos como estes não levam à lugar algum.
Bom, sem saber por que motivo o velho Vanderlei agia daquela maneira, como aliás nunca sei por qual motivo ele age, procurei se o mais profissional possível, ignorei tais esquisitices e perguntei ao nosso pouco estimado gerente qual seria a razão para mais uma dessas tolas reuniões. Espantado com a pergunta ele olhou para cima, em seguida para os lados, e depois me olhou por alguns longos minutos, e, não satisfeito, ele continuava a me observar com um olhar atônito sem expressar reações conclusivas para esta pergunta que, acredito eu, deva ter causado um colapso em seu sistema neurológico, um tanto quanto primitivo. Contudo, outros tantos minutos se passaram, e então, após mais uns minutinhos de espera a resposta saiu da maneira mais destrutiva possível: não sei! Cuspiu-me assim tais palavras enquanto procurava um lenço para enxugar o suor de seu rosto carunchado.
Em seguida ele voltou a se congelar e a me observar mais uma vez, e eu, estupefato fiquei ao saber da realidade. No entanto não me aborreci, dei apenas meia-volta com meus sapatos novos de pelica e fui-me embora para minha sala. Larguei a pasta com as inúteis anotações que fiz na minha mesa, liguei o computador, afrouxei a grava e rumei à sala do cafezinho para jogar um pouco de conversa fora com o pessoal de outro setor que não o meu, pois minha turma estava se perdendo na sala de reuniões e se perguntando o que foram fazer lá.
Oiram Bourges 25/05/2006
posted by Oiram Bourges 8:42 PM
RADIAÇÕES DE UM MORIBUNDO
O incolor de sua cor pouco colorida
Deu destaque a esta neutralidade
Que por fim veio para me acabrunhar
Passos passam passeando pomposamente
Alertando a simplicidade exposta no ar
Ignorados por todos os angustiados
Oh oceano de ridículos que me traga
Dê-me alento no lugar desta situação bizarra
Incapacidade mãe dos desajustados
Traga-me o suplício através do ardor
Sinto uma luz escura a me queimar
Toadas toscas totalmente tépidas
Complementam o cenário mórbido
Sextavado por cunhadores inexperientes
Alardeados pelos mudos da portaria
Que esperam incessantemente
Para poderem gritar uns com os outros.
António Amarillo Peçanha - 2006
MENTE DEMENTE
Internos de seus próprios pensamentos
Perdidos como se fossem crianças sem mães
Procurados procuram por preservação
Na área vazia de um corredor lotado
Pessoas caladas sempre manifestarão
Pela ausência de ruídos na noite crua
Consumindo a energia que o medo possui
Sobre os corpos expostos nas calçadas
A espera áspera de melancolia sem fim
Põe todos onde todos merecem ficar
Lugar desconhecido e sem conhecidos
Não há indicações não há explicações
Não há nada apenas a demência
Daqueles que vivem para presenciar.
António Amarillo Peçanha - 2006
posted by Oiram Bourges 12:10 AM