Valleta Culltural

Valleta Culltural

archives

valletaculltural@pop.com.br

Quarta-feira, Julho 19, 2006

 
UM DIA FEMININO E PERFEITO

Hoje te vi passar pela rua
Em busca de algo que ninguém sabe o que é
Altiva e bem vestida observava
Seu próprio reflexo nas vitrinas
Enquanto sua vida e as agonias se dissipavam
No frescor de um ar poluído
Um débil sorriso estampava em sua face
Tímida e nítida como borra de café
A alegria que ainda não conhecia
Porém aguardava sem pretensão
Conhecer um desconhecido há qualquer momento
Tudo para lhe dizer ainda com as mãos trêmulas
Que hoje ela foi vista passar pela rua
Linda altiva e bem vestida
E que as vitrinas foram feitas para refletirem
A beleza de uma vida sem pretensões.

António Amarillo Peçanha - 2006

posted by Oiram Bourges 7:07 PM


Terça-feira, Julho 18, 2006

 
FIM DOS DIAS ALONGADOS PELO TÉDIO

Seus olhos brilhavam opacos na sala escura
As mãos gélidas se mexiam entrelaçando os dedos
Pensamentos a torpedeavam a todo instante
Admirava seu vestido de cetim negro vez por outra
A cadeira na qual se sentava rangia os pés
Somente isto acontecia durante seus longos dias
Cansada da situação procurou fazer outras coisas
Saiu da cadeira e rumou para a janela
Admirando o vestido que bailava ao sopro do vento
Se debruçou no peitoril e se atirou para fora
Os pés da cadeira não mais rangeram
Ela gelava sob a neve na calçada vazia
O vestido negro estava amarrotado e vermelho.

António Amarillo Peçanha 2006

posted by Oiram Bourges 2:02 AM


Segunda-feira, Julho 10, 2006

 
Ai, essas vizinhas... essas vizinhas estão sempre aí no ponto de ônibus se servindo de suas mediocridades... não sei quanto a você mas, eu já passei por muitas situações como estas... elas começam a conversa sobre o tempo, se vai chover ou não, se fará sol ou não, depois muda tudo, sem aviso prévio, para flores, e eu ali, continuo na minha, e como não sei o que dizer, faço, como disse um conhecido meu, "a pior cara de descaso do mundo". É sem querer, sei disso, pelo menos penso ser sem querer. Mas, mesmo fazendo "a pior cara de descaso que alguém mereça receber" elas continuam firme e forte naquela lengalenga, e sinceramente não sei o que fazer. Então rezo desesperadamente para que venha um ônibus, ou talvez até um caminhão de lixo, para carregar uma de nós, ou, na pior das hipóteses, todos que estejam no ponto de ônibus.

Débora Avadore

posted by Oiram Bourges 9:07 PM


Quarta-feira, Julho 05, 2006

 
Da série: Ao correr dos caracteres

JEZEBEL

Impressionada estava eu assim que vi a paisagem pela primeira vez da janela do quarto onde me localizava. Havia ao longe uma porção de coisas bonitas, o céu bem azul, o mar tranqüilo com suas águas projetando aos olhares enfeitiçados, um incrível azul turquesa, areias brancas me convidando para caminhar nelas, árvores frondosas, flores, muitas flores espalhadas pela mata onde estava localizada a casa da qual se encontrava. Uma grande variedade de pássaros e insetos voava e caminhava pela região. Tudo era festa, tudo era alegria.

Mas apesar de conseguir ver toda esta maravilha não conseguia me deslocar até lá para sentir tudo isso sob meus pés. Encontrava-me imóvel e não tinha como atender meus mais profundos desejos. Eu realmente precisava de alguém para me colocar à disposição da natureza. Certamente, se isso acontecesse de verdade, seria o ser mais feliz do mundo. Contudo, precisaria da boa-vontade de um outro alguém para que tal desejo se realizasse.

Certa vez, enquanto eu olhava um pequeno passarinho fazendo umas piruetas no céu alguém, que não pude ver quem, atendeu meu silencioso pedido. Expôs-me, enfim, direto onde queria, na natureza. Lá eu, dentro de minhas limitações, me agitava e dava gargalhadas sob o sol que, gentilmente queimava minha pele. Sendo ela um pouco áspera pela falta de cuidados. Mas isto não me incomodava naquele momento, pois estava realizando um desejo e um sonho meu; ficar sob o sol, ficar sobre a areia fofa e ver o mar de perto, como sempre quis.

Porém, vi o tempo mudar gradativamente. O vento, que outrora soprava como carícia, soprava agora como vendaval. Forte e colossal. O céu azul deu espaço para o cinza das nuvens pesadas, carregadas de ira e ribombando feito loucas pelo mundo. Os pássaros já não voavam mais tão tranquilamente assim. Agitação entre os animais e os insetos mais variados me causou aflição. Queria, realmente eu queria, mas não podia fazer nada para mudar a situação.

De repente o mundo caiu sobre mim, chuvas fortes vieram acompanhadas com os mais temíveis ventos. Caí então. Logicamente que sem ação. Ninguém lembrou de mim. Fiquei à mercê da natureza. Contudo, senti que não seria meu fim. Afinal de contas aquilo era um pedido meu; ficar sob o sol, ainda que o ser supremo tivesse desaparecido naquele instante, e naquela época. Durante muito tempo fiquei no relento, sem ação ou reação. Estava inerte.

Um bom tempo após esta quase catástrofe a forte chuva cessou, os ventos pararam, o sol volto a aparecer e a vida reinou naquele ambiente. Embora eu estive ensopado, debilitado e com as pernas arqueadas, mais que o normal, estava contente. Loucura? Pode ser, mas tive o prazer de sentir a força da vida sobre mim. Situação esta que me deixou animada para, se caso fosse, morrer por lá mesmo e servir de alimento a outros seres, de tão feliz que me encontrava. Apesar de que, nem todos os seres gostarem de meu corpo.

E quando eu começava a ficar melancólica e desanimada, por ninguém dar a mínima pela minha falta, alguém, que também não pude ver quem, me pegou com carinho e me levou para dentro de casa novamente. Consternada com a situação em que me encontrava, a tal pessoa tratou de me cuidar. Pegou algum material e trabalhou em mim, com carinho e afeição. Disse-me, em segredo, que aquilo que tivera feito a mim era um teste, e completou dizendo que eu tinha passado no teste. E assim sendo cuidaria de mim como quem cuida de algo bastante precioso. Com zelo. Depois que ganhei cuidados especiais recebi até um nome; hoje em dia eu sou a cadeira que se chama Jezebel.

Oiram Bourges 04/07/2006

posted by Oiram Bourges 1:03 PM


Terça-feira, Julho 04, 2006

 
Da série: Ao Correr dos Caracteres

EMOÇÕES NA MESA DE BAR

Lacerda se levantou da cadeira eufórico e ajeitou as calças que escorregavam de seu corpo roliço sem controle ameaçando cair, e enquanto procurava visualizar um garçom para pedir qualquer coisa para nós, que estávamos à mesa, dividia a atenção com o programa que passava no televisor localizado num canto, perto do corredor dos sanitários, e suspenso até perto do teto por um suporte para evitar que algum enxerido engraçadinho resolvesse mexer no aparelho sem autorização.

Num lance duvidoso, em que o árbitro marcou uma falta para o time adversário ele, o Lacerda, perdeu a passagem do garçom, e consecutivamente esqueceu o que ia pedir. Assim sendo, sentou-se atônito, roeu as unhas da mão esquerda e tamborilou com os dedos da mão direita no tampo da mesa. Estava visivelmente transtornado com a situação. Mas para nossa sorte, seus gritos desafinados não se faziam ecoar nas paredes do recinto. Ele ainda conseguia se conter. O que foi, no meu ponto de vista, algo muito bom. Porque ninguém precisava ouvir tamanha bizarrice.

O tempo passava, e nós estávamos nervosos com a situação do jogo. Os outros clientes do bar estavam nervosos, e o proprietário e os dois garçons também. O Lacerda? De tão nervoso que estava não parava de tremer e de sacolejar. Parecia até uma britadeira em ação. O pote de amendoins pedido há pouco tempo para a mesa estava vazio. Os amendoins? Espalhados pelo chão. E também, há esta altura dos fatos todos nós segurávamos nossos copos nas mãos para evitar que tivesse o mesmo fim dos tais petiscos.

Para o jogo terminar faltava poucos minutos, e com ele nossa paciência também estava no limite. Quanto ao Lacerda não quero nem comentar, pois este se encontrava babando sobre o peito e com os olhos fixos no aparelho de TV, inerte, sem expressões. Ficamos preocupados com ele, mas o jogo estava no fim. Então, deixamos ele ficar ali mesmo do jeito que estava, pelo menos nossos copos podiam voltar para a mesa sem ser derrubados.

A partida estava empatada em dois a dois. O clima tenso no boteco e no campo, onde acontecia o jogo. Jogadores dos dois times se provocavam, se empurravam. Foi aí que houve uma expulsão de um dos nossos. O árbitro, aquele ladrão, deveria ter feito isso com o jogador do outro time, e não com o nosso, pensei. Bom, acredito que todos naquela hora pensaram assim. Mas não havia jeito, a nossa defesa estava sem um importante homem. O Lacerda nem piscava mais nesta hora. Que estranho, pensei novamente.

Faltava apenas um minuto para o jogo terminar, e até eu estava roendo unhas. Alguém resolveu ver o que aconteceu com o Lacerda, pois ele estava muito parado. Havia morrido lá, sentado no bar, e sem o nosso auxílio, mas o jogo continuava. Faltava um minuto, podia mudar tudo. E mudou. O atacante dava tudo o que aguentava, já estava visivelmente cansado, nós podíamos ver isso, todos viam isso. Então passou a bola para um outro companheiro num passe fenomenal que, com apenas um chute... Gooollllll... Gol do Brasil! Gritou o locutor, gritamos nós, gritaram todos no bar, nos lares, e em todos os lugares. Lacerda não gritou, estava morto na cadeira. Olhamos para ele neste momento. Tinha um largo sorriso estampado em sua face.

Oiram Bourges 09/05/2006

posted by Oiram Bourges 12:51 PM

Todo escritor teve algum dia um singelo começo


This page is powered by Blogger. Isn't yours?